segunda-feira, 18 de julho de 2011

Antro

Um bar só de homens. Um nicho especial onde eles se reúnem depois do trabalho para beber. Homens de todas as idades, pesos, tamanhos, classe social. E eu. Numa mesa com mais três homens. A princípio foi um pouco incomodo. Depois, ficou divertido. As reações eram as mais engraçadas possíveis. À medida que eu ia entrando naquele templo da cerveja, parecia mais e mais uma peça de decoração kitsch perdida na casa de um mecânico solteiro.
Aqui em La Paz lugares assim são muito comuns. Você passa pela rua e vê uma escada que desce e termina numa escuridão sem fim. Um buraco horroroso, tudo fechado, tudo secreto, cheio de cerveja, suor, perfume de homem. A lógica te diz: é um puteiro. Mas eles garantem sempre que não.
- Que são esses lugares?
- Só bares. Para homens.
- Ahn?
Até que nesse dia pude enfim entrar nesse lugar sagrado, reservado para os machos da espécie. Ao contrário do que muita gente possa pensar, quando estão aí eles não querem ver mulheres. E depois de um tempo olhando, entendi. É o mesmo mistério com relação ao banheiro feminino. Poder estar sozinho ou com semelhantes em uma zona de conforto.
Por exemplo. Num primeiro encontro, a gente capricha. O salto machuca, o decote incomoda, a maquilagem nunca é a ideal, o cabelo nunca está como deveria. Até a mais segura das mulheres já sofreu isso pelo menos uma vez na vida. Nesses momentos o banheiro é a zona de conforto. Não é só pra fazer xixi. É pra por um algodãozinho no pé, olhar no espelho e ter a certeza de que tudo está bem, calma, calma, tudo vai estar bem. Zona de conforto.
Todo homem vai nesse tipo de bar um dia. Casados ou solteiros. Os pais ensinam os filhos. E assim, com cervejinha e amizade, todos vão construindo relações sociais, amenizando a vida e solucionando problemas do mundo exterior.
Ver a sensação de incomodo desses homens com a minha presença me provocou mais que graça. Me fez sentir uma grande ternura por toda essa raça que as vezes parece tão estranha a nós mulheres. Timidamente, olhando pra mim como que pedindo licença ou desculpa por arrotar ou tirar meleca do nariz, ou coçar o saco ou gritar palavras feias.
Aí, nesse singelo caos, comecei a me sentir a vontade também. E tirar a primeira meleca e a coçar o saco imaginário. No final descobri que a vida é linda quando nos sentimos livres, sem querer impressionar. Com arrotinhos tranqüilos num fim de tarde e um sorriso sincero atravessando o copo de cerveja fria.

Um comentário:

O Impenetrável disse...

rsrsrsr
maarvilha de texto. tô lendo aqui na chatice do trabalho.

super gostei.

grande abraço.