sábado, 4 de julho de 2009

Adeus à grande amazona

Como um passarinho que acaricia as folhas das árvores com o movimento de suas asas, ela me deu um último beijo morno. Desde quando eu era bem pequena me despedia dessa figura gordinha e suave com medo de nunca mais voltar a vê-la. Era um medo que gelava por dentro, que consumia as entranhas e me fazia tremer, mas que desaparecia com o aceno delicado daquelas mãos grossas pelo contato com o sabão e a lida dura da vida. Ela acenava, sorria, e só quando o carro estava longe fechava o portão da casinha branca.
Quando eu tinha medo do escuro, ela chamava com carinho:

- Vem, deita aqui na minha cama comigo.

E eu, assim como todos os netos quando estavam atormentados pelas sombras da noite, dormia serena aconchegada na barriga mais confortável que qualquer travesseiro de luxo. O ritmo suave da respiração dela era como uma canção de ninar. Não importavam os fantasmas. Nenhum deles poderia se aproximar daquela aura de ternura. Era nossa fortaleza.

Da pequena cidadezinha de Tiros, interior de Minas Gerais, ela saiu com os filhos e o marido que não amava. Saiu com a coragem das mulheres decididas a mudar de vida. Sem nenhuma garantia de sucesso, mas com a firmeza de quem queria que os filhos tivessem oportunidades reais. Com o tempo nutriu um sonho interessante: queria muito ver alguém da família na TV. Quando conheceu esse estranho aparelho, aliás, foi na casa de um vizinho, já em Goiânia, num bairro pobre da capital. Só ele tinha a tela mágica, e todos da rua se reuniam em torno dela em sessões alternadas.

Nunca vou me esquecer das tardes em que a família se reunia e os pequenos brincavam no quintal até serem atraídos pelo cheiro confortável de pão-de-queijo. Então, todo mundo lavava as mãozinhas e ela colocava ali o precioso biscoito quente, com um sorriso maroto. Quando ia na feira, levava a tiracolo seu carrinho e um ou dois netos. Quando voltava, cada um ganhava sua cota de salgadinhos de feira comercializados em sacos junto com os grãos.

Mesmo com nove filhos e um número sem fim de netos, ela sabia os gostos de cada um. Se fulano gostava de bolo de chocolate e ia visitá-la no domingo, ela preparava com todo o carinho o mimo para satisfazer a pessoa. E não poupava esforços. Se tinha ingrediente em falta, alguém devia sair para comprar e era preciso procurar até encontrar. Nos aniversários ela ia além: não tinha dinheiro para comprar grandes presentes, mas sempre preparava um almoço especial para o aniversariante. Nada a deixava mais feliz que ver as pessoas que amava felizes.

Ela passou pela maior tristeza que uma mulher pode passar nessa vida: perdeu um filho. Aos vinte e poucos anos e com muitos planos de ser grande na vida, ele se acidentou no trabalho. Mesmo com o peito dilacerado e a saúde debilitada pela dor, levantou a cabeça para criar os outros pequenos. E cuidou de todos, educou todos com a severidade e o carinho que garantiram que a família fosse sempre de gente honesta e trabalhadeira.

A gente quase perdeu tantas vezes essa mulher tão especial, ela superou tantas, que mesmo quando já estava na UTI em estado gravíssimo ninguém acreditava que dessa vez fosse pra valer. Mas se o espírito era forte, o corpo já estava debilitado demais: por todas as coisas lindas que fez nessa vida, Deus achou melhor levá-la para evitar mais sofrimentos. Ela merecia descansar, foram 79 anos de lutas muito duras.

Venho de uma linhagem de mulheres fortes, daquelas que sustentam o mundo nas costas. Venho diretamente das amazonas, que não pensavam duas vezes ao ter de decepar o seio para se fortalecer para a guerra. Mas se existe uma dor capaz de rasgar o coração e fazer gemer e gritar é a dor que vem com o vazio provocado pela falta de quem amamos. Dessa a gente até pode escapar com lágrimas furtivas em alguns instantes, mas chega um momento em que se cai, tomba. Só que se existe algo que aprendi com ela, nossa líder, a amazona-mãe, foi que os guerreiros podem se ferir de morte, que mesmo com a dor sufocando devem levantar a cabeça e sorrir. O importante é fazer valer nossa missão.

Para salvar a família, assim como a Judite da história bíblica, ela decepou muitas cabeças e lutou muitas guerras sem nunca perder a doçura e o sorriso. E essa é a imagem que terei sempre de você, vovó: o seu sorriso e o último beijo que mesmo morrendo de dor a senhora jogou pra mim no meio da UTI. É disso que sempre vou me lembrar quando a dor for grande, as sombras me atormentarem e eu não tiver o consolo da sua barriguinha macia e perfumada para me proteger. Vou seguir sorrindo. Porque foi assim que você me ensinou a fazer.

5 comentários:

lara disse...

E mais uma vez me arrepio ao ler seu texto.
Parabéns! Lindo.

Não me contive, sem eu ao menos perceber desceram alumas lágrimas, porque enquanto eu lia lembrava-me de uma 'mãe' que tive (tenho, sempre vou ter). Que Deus a levou de mim, a dois anos, muito nova, com muito a ensinar. Mas a levou pra não sofrer mais, só que com isso, nós sofremos aqui, sofremos por sua tamnha saudade.

Beijos

allegra disse...

Nossa Lídia,
Homenagem linda a sua avó. Pessoal, mas, ao mesmo tempo, tão familiar. Parece que a gente se vê ali, admirando a amazona de cada uma de nós.

Beijo

Lídia Amorim disse...

Que bom que vocês gostaram, meninas. Eu precisava prestar essa última homenagem a essa mulher que me deu carinho e referências para viver. Beijos e obrigada por acompanharem o blog!

lara disse...

Que isso Lídia.

Você escreve maravilhosamente bem. Me encanto cada vez que passo por aqui.
Sei que não me conhece, mas ouço falar coisas lindas à seu respeito.

Beijos

Daniella Christina disse...

Texto lindo,carregado de sentimento e verdade. Memórias de um laço forte e indivisível.Parabéns!