quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pagu


Vazio. O que desespera a todos nós não é exatamente o medo, nem a tristeza, nem a ausência da coragem. É o vazio. É querer dar à vida um significado que não sabemos qual é. Queria ter a serenidade da Maitê Proença, quando ela falou numa palestra esse ano aqui em Goiânia que “se não sabemos o motivo de estarmos aqui, que pelo menos seja agradável”. Juro que tentei e sempre tento, mas às vezes é extremamente difícil.
Como fazer ser agradável? Sorrindo para todos? Talvez. Fazendo pequenas coisas diárias que façam alguém feliz? É, isso também é ótimo e alivia bastante. Fazer coisas que dêem um prazer momentâneo? Funciona por um tempo. Mas sempre volta aquele questionamento de "que utilidade tem minha vida para o mundo?".
Acho que isso sempre existiu em mim, como a cada dia que passa comprovo que existe em todas as pessoas, mas sinto isso de forma mais acentuada desde que entrei na universidade. Eu pensava que o jornalismo iria me fazer feliz e me satisfazer. Mas desse ofício veio como que uma obrigação de fazer algo pelo mundo, algo que não sei o que é. Na adolescência eu acreditava que meus pequenos trabalhos em movimentos da Igreja Católica mudavam de alguma forma o mundo, mas não sei até que ponto tudo isso era verdade. Me deparei com tantas mentiras que não suportei continuar. Me desespera pensar que no jornalismo não vou conseguir fazer algo que seja útil. É delicioso ser elogiada por uma ou outra matéria. Mas é tão angustiante pensar em que isso vai mudar a vida das pessoas...
Acho que pesa a responsabilidade do que sempre acreditei ser jornalismo: uma forma de fazer algo pelo mundo. De denunciar, ser crítica, mas também de mostrar a beleza das coisas. Mas tem dia que me sinto murchando, meio sem crença, meio com a ilusão capenga.
Há dias em que penso se realmente as pessoas querem ler o que eu acho que elas querem. Se realmente querem alguma beleza ou ver o lado dos seres humanos que ficam escondidos sob os estereótipos que insistimos em reafirmar. O Edvaldo, grande mestre do Jornalismo Literário, garante que sim. E eu quero tanto acreditar nisso, quero tanto, quero com todas as minhas forças.
Essa semana li Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Deus do Céu! Cada linha era uma facada. Que mulher foi essa Pagu. Talvez eu tenha sentido mais porque – claro que em escala menor, porque né, quem sou eu – me identifiquei. Sabe, ela procurava um ideal pelo qual pudesse entregar sua vida. Tentou o Modernismo, o Comunismo...e mais ismos...E nunca encontrava!
Se decepcionou com a vanguarda modernista arrogante que assim como muitos dos intelectuais de hoje querem criticar sem ver os próprios defeitos. Como são vaidosos e chatos os intelectuais. Deve ser por isso que prefiro a gente comum, que não se esforça por ser encantadora e por isso é muito mais interessante que os intelectualóides que querem a todo preço provar sua superioridade.
Se decepcionou com o comunismo, uma causa pelo qual entregou a vida e na qual tentou provar toda sua fidelidade e paixão, que foi ignorada. Os comunistas eram o extremo dos modernistas: queriam tanto valorizar o operário que precisavam rebaixar os que pensassem serem burgueses.
Sem falar nos amores dessa mulher. Desde muito cedo, para ela cada relacionamento era uma busca por se encontrar e encontrar amor de verdade. Eu ia escrever que todas nós mulheres temos essa ânsia de preencher nossa falta de alguma coisa no peito com nossos amores. Mas não. Os homens também têm esse vazio, essa sede. Também têm essa procura. Isso é visível, perceptível demais. Os vazios de todos parecem gritar no meio da rua.
Fico pensando como não ficou o coração dessa Pagu que tanto lutou contra o vazio de ideal, que tanto buscou algo pelo que lutar e não encontrou seu lugar por anos. Como o livro acaba no momento em que Patrícia Galvão é presa, nunca vou saber se ela morreu feliz ou se pelo menos por alguns instantes achou seu lugar no mundo. Não me parece verídico se eu não ler com as palavras dela. De repente os olhos de Pagu me pareceram muito mais vivos na foto da capa. Ela me parece hoje muito mais viva, quase um pedacinho de mim. De repente senti muito mais frio e meu vazio começou a gritar ainda mais. Será que eu vou morrer feliz ou ao menos por alguns instantes achar meu lugar ou o ideal pelo qual daria a vida?
Só quero não ser morna. Me recuso a aceitar esse vazio. Não interessa se vou conseguir ou não vencê-lo, mas é minha obrigação tentar. Se for para morrer, que seja de paixão, não de tédio.

3 comentários:

joaoadolfoamaral disse...

Me senti representado pelo seu texto... e muito. Essa sensação de vazio é algo muito intenso, um buraco que eu não sei como tapar. E, assim como você, tenho me questionado muito sobre o sentido da vida e das coisas. Se existir resposta, eu gostaria de encontrar. (eu acho que não existe uma resposta, pelo menos não uma completa).

Fernanda Alves disse...

nada pior que o vazio...
é horrivel ficarmos cheios de vazio,quando o mundo é tão cheio de paixão.

Ítala disse...

É! Acho que sei exatamente o que é esse vazio e tal incapacidade de transformar o nosso meio, mesmo exercendo uma das mais belas (e ingratas) profissões que conheço. Um dia vamos parar de nos frustrar e encontrar uma forma de modificar, nem que seja um pouquinho, a realidade.

Ah... adorei a parte que vc chama os intelectuais de chatos! Concordo! Tb gosto e admiro os comuns, os puros, os ingênuos...