O rosto enrugadinho sorri meio sem jeito. As mãos meio vacilantes ajeitam bem rápido o gorrinho de tricô. Em seguida os dedinhos pequenos alisam o casaco gasto, entram pelos botões e coçam a pele cheia de histórias sob o corpinho do vestido. Coça a orelha.
- Sabe, estou há meia hora esperando a senhora que vem me buscar. É uma casa de luxo, na Zona Sur. Mas essa gente é meio esnobe, você acha que eu devo aceitar?
Diante da pergunta, olho com mais atenção a senhora cheia de expectativa que está sentada ao meu lado.
- Penso que essa gente vai me tratar mal. Mas é bom o trabalho, vou ficar sentada, vou ter comida. Mas e se me maltratam?
Lhe digo que experimente, e se não gosta, que deixe o trabalho. A pequena e magra senhora, no entanto, não pára de falar. Tem dois filhos que já não sabe onde estão. Tem amigos que lhe ajudam. Tem 200 pesos de ajuda do governo. Tem histórias que “nem gostaria de lembrar”. Tem uma casinha humilde com uma janelinha por onde vê passar a vida de quem ainda corre apressado por ter muito o que viver. E tem medo, muito medo da gente que maltrata os pobres. Com sua voz fina e fraquinha, a única coisa que não tem é alguém que lhe escute os problemas e neuroses. Coisas da solidão.
Fala de estar sozinha como se não se importasse, mas aos poucos os olhinhos rasgados se enchem de lágrimas:
- Gosto de ver gente.
E olha o horizonte povoado por trabalhadores indo para o horário de almoço. Os dedinhos se entrelaçam e fazem movimentos nervosos ao som de uma morenada que não está tocando. Respira fundo mais uma vez.
Chega a futura patroa. Pede desculpas. E intima a senhora-formiguinha a entrar no BMW.
Com passinhos lentos e delicados a senhora se dirige ao carro de luxo. Antes, cochicha em meu ouvido que nunca havia entrado em um carro assim. Como seria seu cheiro?
Bate a porta. Abre a janela:
- Meu nome é Ana. Te conto depois – E acena como se eu fosse uma velha amiga.
terça-feira, 28 de junho de 2011
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Memorias del fuego
“No altiplano andino, mama é a Virgem e mama são a terra e o tempo. A terra, a Mãe- Terra, a Pachamama, se enfurece se alguém bebe sem convidar-la. Quando ela tem muita sede, rompe a vasilha e a derrama.
A ela se oferece a placenta do recém-nascido, enterrando-la entre as flores para que a criança viva. E para que viva o amor, os amantes enterram seus cabelos enrolados.
A deusa terra recolhe em seus braços os cansados e os quebrados que brotaram dela e se abre para dar-lhes refugio no final da viagem. Desde abaixo da terra, os mortos a florecem”
De Memórias do fogo – As caras e as máscaras – Eduardo Galeano
A ela se oferece a placenta do recém-nascido, enterrando-la entre as flores para que a criança viva. E para que viva o amor, os amantes enterram seus cabelos enrolados.
A deusa terra recolhe em seus braços os cansados e os quebrados que brotaram dela e se abre para dar-lhes refugio no final da viagem. Desde abaixo da terra, os mortos a florecem”
De Memórias do fogo – As caras e as máscaras – Eduardo Galeano
quinta-feira, 24 de março de 2011
Não custa
Deita no chão de casa e para um pouco pra olhar o céu. É economizar energia e ao mesmo tempo tirar uma horinha da nossa vida agitada pra sentir a música da vida, aproveitar pra bater um papo olhando a lua ao lado das pessoas que você mais ama e que nunca escuta. Deixe o planeta respirar e respire também. Você pode ter uma grande surpresa. =D
É SÁBADO, 27 DE MARÇO, ENTRE 20h30 E 21h30 (HORA DE BRASÍLIA)
É SÁBADO, 27 DE MARÇO, ENTRE 20h30 E 21h30 (HORA DE BRASÍLIA)
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O senhor da abundância

Aperto. Suor mesmo a 10 graus centígrados e baixo uma chuvinha fina. Nas mãos das pessoas carrinhos, cestinhas com comidinhas pequenininhas e mais uma grande variedade de inhos. Esses mês tudo é inho. É tempo de miniaturas em La Paz. É tempo da feira de Alasitas. Todos saem para comprar em miniatura as coisas que desejam ter grandes. O frio ar paceño fica com um cheiro forte de palo santo. É que além de comprar tem que fazer ch’allar com um yatiri, um bruxo andino, o que cria o vínculo entre o desejo das pessoas e o senhor das Alasitas, Ekeko. Ele vai fazer o pequenino ser grande. O Ekeko. Senhor da Abundância.
Também há cerimoniazinhas. As pessoas se casam, fazem batismos e até divórcios. Compram casas, lotes, planejam viagens e tiram passaportes. E recebem seus documentinhos. Tudo jurado em cartorinhos e devidamente selado com carimbinhos.
La Paz sempre tem uma certa magia no ar, mas essa época é especial, doce. Nossas casas ficam com um cheiro bom de flores com mel e açúcar. O pequenininho é também uma sementinha no coração de que tudo vai dar certo. Agora a esperança para mim tem cheiro, e é fumaça de palo santo. É flor e suor. É maçã-do-amor e miniatura de pão e rosquinhas.
Eu também já fiz minhas comprinhas em Alasitas. Infelizmente ainda não se pode comprar um bloguinho. Mas junto com tantos projetos, O Sussurro e a opinião de todos vocês é muito importante para mim. Essa é minha primeira postagem de 2011. E aqui, desde Los Andes, desejo a todos muita sorte e agradeço por estarem comigo. Esse ano vai ser espetacular. Vocês podem ver? Eu sim, ta evidente nesse sorriso maroto do Ekeko.
P.s.: O Ekeko é boliviano de origem. Não peruano. ;D
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Preparação
Os dedos tocam o rosto. A pele macia, o toque, o calor da mão que conseguia cobrir-lhe a bochecha. Assim ele lhe desvendava, lhe descobria. A deixava sem defesas e fazia tremer todo o seu corpo. Abraço. Miradas suaves. Perfeição. É conto de fadas, a união do dual, a complementaridade. Yin e Yang. O reencontro.
Abre os olhos. Vazio. Nada. Não há mais sonho. Os olhares são duros. Caminha e sente os cristais que penetram finos os pés desnudos. O piso amadeirado se tinge de vermelho. Pela janela entra um vento frio, cortante. Já não há borboletas nem sol. Chuva? Não. O vazio do frio inexplicável. Mas vai passar. E ela sabe.
__________
Em um mês chega a primavera. Só um mês? É necessário preparar-se. Senta-se no sofá quente de lembranças. Olha os pequenos pés delicadamente feridos. As cortinas já não voam. Tira da pele um por um os delicados cacos.
Mete os pés na bacia que jaz ao lado com sua água transparente. A água fria a tira de seu torpor: a vida não é só memória e sonho. Depois do choque sente entre os dedos um estranho prazer: a vida tampouco é apenas realidade. Enxuga os pés, cada curva, os dedos, as unhas, o calcanhar. Olha os pequenos pontos rosados. Já não há sangue e até consegue ver beleza nas feridas.
Fecha os olhos. Respira fundo. E resolve voltar a sonhar em outro contexto.
Abre os olhos. Vazio. Nada. Não há mais sonho. Os olhares são duros. Caminha e sente os cristais que penetram finos os pés desnudos. O piso amadeirado se tinge de vermelho. Pela janela entra um vento frio, cortante. Já não há borboletas nem sol. Chuva? Não. O vazio do frio inexplicável. Mas vai passar. E ela sabe.
__________
Em um mês chega a primavera. Só um mês? É necessário preparar-se. Senta-se no sofá quente de lembranças. Olha os pequenos pés delicadamente feridos. As cortinas já não voam. Tira da pele um por um os delicados cacos.
Mete os pés na bacia que jaz ao lado com sua água transparente. A água fria a tira de seu torpor: a vida não é só memória e sonho. Depois do choque sente entre os dedos um estranho prazer: a vida tampouco é apenas realidade. Enxuga os pés, cada curva, os dedos, as unhas, o calcanhar. Olha os pequenos pontos rosados. Já não há sangue e até consegue ver beleza nas feridas.
Fecha os olhos. Respira fundo. E resolve voltar a sonhar em outro contexto.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Miradas
- O problema é que você olha as pessoas nos olhos.
- ?????
- É, não se pode olhar as pessoas nos olhos.
- Por que?
- É perigoso, avisam até nos aeroportos. Você dá abertura para que as pessoas cheguem até você.
- Isso é ruim?
- É perigoso.
- Não dizem que os olhos são as janelas da alma? Pois é, o problema é que sou muito bisbilhoteira, adoro uma janelinha.
- ?????
- É, não se pode olhar as pessoas nos olhos.
- Por que?
- É perigoso, avisam até nos aeroportos. Você dá abertura para que as pessoas cheguem até você.
- Isso é ruim?
- É perigoso.
- Não dizem que os olhos são as janelas da alma? Pois é, o problema é que sou muito bisbilhoteira, adoro uma janelinha.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
A menina dos sapatinhos vermelhos
- Rasga-me com a força de uma espada forjada em mil ressentimentos.
Assim começava a fala da menina que não sentia sua vida clareada pela luz da lua cheia feita para os amantes. Sentada embaixo de uma árvore sem folhas, ela só sabia olhar as estrelas com os olhos opacos. Olhos que só podem ser tão apagados porque já brilharam demais. Como pode algo tão recente doer tanto? Doía. Com aquela dor estranha e silenciosa que corrói as entranhas, fechou os olhos por uns instantes. Estava cansada. Tão jovem e tão cansada. A verdade é que não sabia por onde ir. Sentia-se cansada e estúpida, o tipo de pessoa que jamais poderia ser amada de verdade por alguém.
- Sangra e faz jorrar esses ciúmes amargos e doloridos, coração.
Era o apocalipse interno. A força de mil dragões torturando-a e rindo de sua agonia. Por que amar dói tanto? Era a única coisa que ela queria entender. A pobre menina de sapatinhos vermelhos que não tinha estrada amarela para seguir, só um amor gigantesco e uma vontade enorme de gritar. Quando ouviu o grito da louca que cantava na esquina, sorriu. Queria ter a liberdade dos loucos, que em seu delírio não se importam com quem quer que seja, só com os próprios devaneios, com os amores de sonho. Deve ser bom ter um amor de sonho. Desses em que não existe o perigo de cair da cama e esborrachar-se na realidade dura e gelada. Que merda de realidade, menina. Você deveria mesmo ter seguido Alice e ficado pelo País das Maravilhas, que aqui só há dor e ressentimento. Respirou fundo. Sentiu o ar quente e seco agredindo suas narinas.
Depois de chorar lágrimas de açúcar amargo, a menina adormeceu. Acordou com um incômodo nos pés. Durante o sono os pés cresceram atrevidos, esborrachados e feios, e rasgaram o delicado sapatinho vermelho-brilhante. Pronto. Agora era seguir descalça mesmo, sentindo a rudeza das pedras e a aspereza da terra. Era sua vez de, despida de tudo, encarar a vida. E dessa vez nem o Mágico poderia intervir por ela.
Assim começava a fala da menina que não sentia sua vida clareada pela luz da lua cheia feita para os amantes. Sentada embaixo de uma árvore sem folhas, ela só sabia olhar as estrelas com os olhos opacos. Olhos que só podem ser tão apagados porque já brilharam demais. Como pode algo tão recente doer tanto? Doía. Com aquela dor estranha e silenciosa que corrói as entranhas, fechou os olhos por uns instantes. Estava cansada. Tão jovem e tão cansada. A verdade é que não sabia por onde ir. Sentia-se cansada e estúpida, o tipo de pessoa que jamais poderia ser amada de verdade por alguém.
- Sangra e faz jorrar esses ciúmes amargos e doloridos, coração.
Era o apocalipse interno. A força de mil dragões torturando-a e rindo de sua agonia. Por que amar dói tanto? Era a única coisa que ela queria entender. A pobre menina de sapatinhos vermelhos que não tinha estrada amarela para seguir, só um amor gigantesco e uma vontade enorme de gritar. Quando ouviu o grito da louca que cantava na esquina, sorriu. Queria ter a liberdade dos loucos, que em seu delírio não se importam com quem quer que seja, só com os próprios devaneios, com os amores de sonho. Deve ser bom ter um amor de sonho. Desses em que não existe o perigo de cair da cama e esborrachar-se na realidade dura e gelada. Que merda de realidade, menina. Você deveria mesmo ter seguido Alice e ficado pelo País das Maravilhas, que aqui só há dor e ressentimento. Respirou fundo. Sentiu o ar quente e seco agredindo suas narinas.
Depois de chorar lágrimas de açúcar amargo, a menina adormeceu. Acordou com um incômodo nos pés. Durante o sono os pés cresceram atrevidos, esborrachados e feios, e rasgaram o delicado sapatinho vermelho-brilhante. Pronto. Agora era seguir descalça mesmo, sentindo a rudeza das pedras e a aspereza da terra. Era sua vez de, despida de tudo, encarar a vida. E dessa vez nem o Mágico poderia intervir por ela.
Assinar:
Postagens (Atom)