quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cineclubes

Que o preço do cinema está nas alturas é fato. A cada dia é mais complicado pagar para ver um filme na telona, ainda mais para quem, como eu, não tem mais carteirinha de estudante para pagar meia entrada. E não é só esse o problema que faz do acesso ao cinema algo restrito. Além dos altos valores, milhares de cidades no país não possuem salas de exibição. É uma constatação triste, ainda mais quando paramos para pensar que não é só diversão. É cultura, cidadania e instrumento de transformação social.

Os cineclubes tem exatamente a intenção de preencher esse vazio que existe no Brasil. É uma alternativa bacana para ver filmes que geralmente não estão no circuito das salas comerciais e de graça. Opção interessante para quem gosta de cinema e quer assistir e debater. E se engana muito quem pensa que isso é coisa de nerd cinéfilo, de estudantes que não tem mais o que fazer ou apenas de panelinhas formadas por gente ligada à produção audiovisual.

Qualquer pessoa ou instituição que tiver vontade de montar um cineclube pode participar do evento que acontece esse final de semana em Goiânia, nos dias 17 e 18, no Centro Cultural Caravídeo. É a etapa estadual do Circuito em Construção - Seminários Estaduais para a Auto-Sustentabilidade Cineclubista. A intenção é instruir sobre como montar e sustentar um cineclube, já que não dá para manter sozinho - financeiramente - uma estrutura como essa. Existem incentivos inclusive do Ministério da Cultura.

Apesar de existirem pelo menos 12 cineclubes em Goiás, infelizmente, eles não funcionam regularmente, com exibições constantes. É o que afirma Luiz Felipe Mundim, Coordenador do Cine Mais Cultura da ABD-GO e do Cineclube Cascavel. Isso é porque, segundo Luiz Felipe, a galera em Goiás ainda não tem a mesma consciência dos cineclubistas dos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. A atividade cineclubista, que completa esse ano 81 anos no Brasil, se fortalece cada vez mais e consegue se auto-manter. Para fortalecer esse movimento também em Goiás, basta se unir e se conscientizar sobre a força e poder de mobilização do cineclubismo.

O projeto Circuito em Construção – Seminários Estaduais Para a Auto-Sustentabilidade Cineclubista reuniu em junho de 2008 no Rio de Janeiro um representante do movimento de cada estado brasileiro. Cada representante se preparou para realizar o evento em seu estado. Goiás fechará a lista dos seminários estaduais com a presença de importantes nomes para o Cineclube nacional e internacional, como o Presidente do Conselho Nacional de Cineclubes e Vice-Presidente da Federação Internacional de Cineclubes Antônio Claudino de Jesus, o Coordenador-Geral de Difusão de Direitos Autorais e de Acesso à Cultura do Ministério da Cultura (MinC) Rafael Pereira Oliveira e o Coordenador Executivo da ação Cine Mais Cultura do MinC Frederico Cardoso.

Antônio Claudino, aliás, é uma pessoa super disponível, com anos de experiência em cineclubismo. Conversei um pouco com ele por telefone, mas infelizmente no Diário da Manhã saiu apenas uma notinha, porque as fotos não estavam muito boas e por esse motivo seria complicado dar destaque. Claudino explicou que para montar um cineclube e para fazer com que ele dê certo, é necessário que em primeiro lugar, exista um grupo de pessoas interessadas em ver e discutir filmes. É importante também que esse grupo possua uma identidade com a comunidade em que está inserido e que veja o cinema não apenas como diversão, mas como uma forma de exercer a cidadania. Outra dica interessante de Claudino é o site www.cineclubes.org.br para quem tem interesse se familiarizar mais com o tema.

Nos dois dias de seminário serão realizadas seis mesas-redondas que discutirão temas como: O panorama do cineclubismo no Brasil e no mundo; Cineclubismo e Memória em Goiás; Direitos Autorais; Programação e Distribuidores de Conteúdo; Cineclubes, uma rede em defesa dos direitos do público; Mecanismos de Financiamento da Cultura; Relatos de Experiências Locais.

Para quem quer saber mais:
Circuito em Construção - Seminários Estaduais para a Auto-Sustentabilidade Cineclubista

Quando? 17 e 18 de julho, das 9h às 18h
Onde? Centro Cultural CARAVÍDEO Rua 83, n.º 361, Setor Sul – Goiânia – GO
Inscrições gratuitas pelo: www.cineclubecascavel.blogspot.com
Vagas limitadas
Mais informações: (62) 3218-6895 (Delma ou Tatiane)

sábado, 4 de julho de 2009

Adeus à grande amazona

Como um passarinho que acaricia as folhas das árvores com o movimento de suas asas, ela me deu um último beijo morno. Desde quando eu era bem pequena me despedia dessa figura gordinha e suave com medo de nunca mais voltar a vê-la. Era um medo que gelava por dentro, que consumia as entranhas e me fazia tremer, mas que desaparecia com o aceno delicado daquelas mãos grossas pelo contato com o sabão e a lida dura da vida. Ela acenava, sorria, e só quando o carro estava longe fechava o portão da casinha branca.
Quando eu tinha medo do escuro, ela chamava com carinho:

- Vem, deita aqui na minha cama comigo.

E eu, assim como todos os netos quando estavam atormentados pelas sombras da noite, dormia serena aconchegada na barriga mais confortável que qualquer travesseiro de luxo. O ritmo suave da respiração dela era como uma canção de ninar. Não importavam os fantasmas. Nenhum deles poderia se aproximar daquela aura de ternura. Era nossa fortaleza.

Da pequena cidadezinha de Tiros, interior de Minas Gerais, ela saiu com os filhos e o marido que não amava. Saiu com a coragem das mulheres decididas a mudar de vida. Sem nenhuma garantia de sucesso, mas com a firmeza de quem queria que os filhos tivessem oportunidades reais. Com o tempo nutriu um sonho interessante: queria muito ver alguém da família na TV. Quando conheceu esse estranho aparelho, aliás, foi na casa de um vizinho, já em Goiânia, num bairro pobre da capital. Só ele tinha a tela mágica, e todos da rua se reuniam em torno dela em sessões alternadas.

Nunca vou me esquecer das tardes em que a família se reunia e os pequenos brincavam no quintal até serem atraídos pelo cheiro confortável de pão-de-queijo. Então, todo mundo lavava as mãozinhas e ela colocava ali o precioso biscoito quente, com um sorriso maroto. Quando ia na feira, levava a tiracolo seu carrinho e um ou dois netos. Quando voltava, cada um ganhava sua cota de salgadinhos de feira comercializados em sacos junto com os grãos.

Mesmo com nove filhos e um número sem fim de netos, ela sabia os gostos de cada um. Se fulano gostava de bolo de chocolate e ia visitá-la no domingo, ela preparava com todo o carinho o mimo para satisfazer a pessoa. E não poupava esforços. Se tinha ingrediente em falta, alguém devia sair para comprar e era preciso procurar até encontrar. Nos aniversários ela ia além: não tinha dinheiro para comprar grandes presentes, mas sempre preparava um almoço especial para o aniversariante. Nada a deixava mais feliz que ver as pessoas que amava felizes.

Ela passou pela maior tristeza que uma mulher pode passar nessa vida: perdeu um filho. Aos vinte e poucos anos e com muitos planos de ser grande na vida, ele se acidentou no trabalho. Mesmo com o peito dilacerado e a saúde debilitada pela dor, levantou a cabeça para criar os outros pequenos. E cuidou de todos, educou todos com a severidade e o carinho que garantiram que a família fosse sempre de gente honesta e trabalhadeira.

A gente quase perdeu tantas vezes essa mulher tão especial, ela superou tantas, que mesmo quando já estava na UTI em estado gravíssimo ninguém acreditava que dessa vez fosse pra valer. Mas se o espírito era forte, o corpo já estava debilitado demais: por todas as coisas lindas que fez nessa vida, Deus achou melhor levá-la para evitar mais sofrimentos. Ela merecia descansar, foram 79 anos de lutas muito duras.

Venho de uma linhagem de mulheres fortes, daquelas que sustentam o mundo nas costas. Venho diretamente das amazonas, que não pensavam duas vezes ao ter de decepar o seio para se fortalecer para a guerra. Mas se existe uma dor capaz de rasgar o coração e fazer gemer e gritar é a dor que vem com o vazio provocado pela falta de quem amamos. Dessa a gente até pode escapar com lágrimas furtivas em alguns instantes, mas chega um momento em que se cai, tomba. Só que se existe algo que aprendi com ela, nossa líder, a amazona-mãe, foi que os guerreiros podem se ferir de morte, que mesmo com a dor sufocando devem levantar a cabeça e sorrir. O importante é fazer valer nossa missão.

Para salvar a família, assim como a Judite da história bíblica, ela decepou muitas cabeças e lutou muitas guerras sem nunca perder a doçura e o sorriso. E essa é a imagem que terei sempre de você, vovó: o seu sorriso e o último beijo que mesmo morrendo de dor a senhora jogou pra mim no meio da UTI. É disso que sempre vou me lembrar quando a dor for grande, as sombras me atormentarem e eu não tiver o consolo da sua barriguinha macia e perfumada para me proteger. Vou seguir sorrindo. Porque foi assim que você me ensinou a fazer.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Brasileiro, eu?

De tanto dizerem que o brasileiro não tem memória, acabamos mesmo nos esquecendo de tanta coisa...
De tanto ouvirmos falar que brasileiro é acomodado, a gente se acostuma...
Ou será que quem diz isso apenas tem razão?
Tenho orgulho de ser brasileira. Quase sempre. Porque há também ocasiões em que minha cara queima de vergonha.
Quando ouço uma estudante de geografia de universidade federal me dizer que vai sim votar em determinado político, e não importa todos os escândalos em que ele se envolveu, todas as acusações de desvio de verba que foram silenciadas. Não importa porque isso é passado. É, o passado não importa. Porque não importa também Fernando Collor de Mello ganhar força política novamente depois do Brasil se mobilizar para tirá-lo do poder num processo de impeachment.
E ninguém se importa com escândalos, desvios de verba, CPIs, dinheiro em cueca, em mala, em qualquer lugar que não seja investimento no povo brasileiro. Não importa.
Ninguém se incomoda com tudo que se vê na televisão, lê nos jornais sensacionalistas que mostram bunda e sangue, nas revistas que falam mal do povo brasileiro e exaltam aqueles que nos pisam. É, não importa. Eu vou votar porque ele faz uns asfaltos de má-qualidade, uns viadutos de espeto. Vou votar no político que rouba mas "faz". Faz investimentos na bolsa, em fazendas, no futuro brilhante dos próprios filhos.
A gente vota é naquele que não fala nada de coerente nas campanhas, mas tem um sorriso legal. Que tem propostas esdrúxulas, mas é gente do povo.
A gente é brasileiro e não desiste nunca.
A gente sorri no ônibus lotado que sobe de preço todo ano. Até reclamamos um pouco. Para os amigos no churrasco mirrado do sábado. Porque na hora de reclamar com quem é responsável por isso...Para que se incomodar?
A gente sorri pro velhinho que está em pé ao lado do banco em que estamos sentados. A gente ri da garota com os braços cheios de livros que perde o equilíbrio quando o ônibus freia.
A gente ri da desgraça que virou nossa vida com impostos que sobem mais de 100% ao ano. Do salário que não entra. O santo dinheiro do nosso suor, que mal dá para pagar as contas do mês e o qual não temos o direito de receber em dia.
A gente acha legal o bolsa-família, bolsa-estudo, bolsa-gás, bolsa-puta-que-o-pariu que o governo paga com o dinheiro que trabalhamos duro para ganhar. Achamos bonito a pessoa que vive em situações miseráveis, que não tem o direito à dignidade de trabalhar e ganha a comida, mas não ganha respeito.
Às vezes, a gente até se choca com assassinatos brutais. Mas no mês seguinte ninguém lembra de mais nada, e logo o assassino está nas ruas e é mais um que ri de nós.
Aqui no Brasil, os políticos corruptos não tem mais nem a dignidade de rir pelas costas do povo. Ri na cara mesmo. Se lixa para a opinião pública, já que pela inércia o público parece não ter opinião.
A imprensa vendida. Os jornalistas de alma vendida. Por que ser diferente num país em que ninguém se importa? É o que EU JÁ OUVI DE VERDADE. Quando alguma mídia mostra nossa triste realidade, seja com humor ou não, a gente até se incomoda. Ri... E aí? Logo estamos votando errado de novo. E não é por inocência. Optamos pelas mesmas pessoas. E então faz todo o sentido do mundo passar meia hora ouvindo notícias ruins no jornal da manhã e a âncora terminar tudo com um sorriso singelo e um: "Bom dia e boa semana".
Teremos uma boa semana. Um final de semana alegre. Sem dinheiro para a cerveja. A gente vai lá e estoura um pouquinho o limite. E engole tudo. Sente o gosto amargo da derrota de não ter forças para reclamar. E espera o ínicio da novela ou o fim da noite.
"Não acomodar com o que incomoda", diz Fernando Anitelli. Só é complicado mesmo quando a gente olha em volta e parece que é o único que se incomoda.

Todo mundo cansado de ver esse vídeo...Mas vou postar de novo. Pra gente rir, né? Porque se manifestar mesmo, tá difícil.

sábado, 2 de maio de 2009

O retratinho

Eu estava tranquila. Sem frio para agasalhar. Sem sol para aquecer. Sem vento que arrepiasse os pêlos da nuca. Estava ali. Normal. Ser morno parece simples, mas é complicado. Isso porque quando se é morno, não há paixão. Quando se escreve morno, as letras saem retinhas, emparelhadas, sem provocar sensação ou sentimento. Ou se é frio, ou se é quente. Ser morno é conformismo. É levantar, beber o leite, trabalhar, voltar, trabalhar, ver a novela na TV e dormir depois de acalmar o coração não com amor, mas com remédio. E aqui estava tudo morno, sabe? Tão morno que dava medo.
De repente ele caiu no chão. O retratinho.

- Era 3x4, menina?
- Não, nem isso. Era um retratinho tão pequeno...

No retratinho estava o rosto do meu primeiro gesto de coragem, da primeira vez que liguei o foda-se. Era o retratinho da minha primeira descoberta de que existe mundo demais. Quando percebi que basta querer para colocar o pé na estrada e fazer sonhos serem realidade. Só é preciso disposição para encarar o mundo exterior e ter coragem para mergulhar no fantástico mundo interior - nosso e dos outros. E por que então estou aqui?

O retratinho esquentou tudo. Esquentou o incômodo pelo comodismo. Esquentou o zíper da mochila aberta esperando para ser preenchida. Esquentou o interesse pelos olhares invisíveis dentro do ônibus. E era só o seu retratinho, que ainda levo no coração mesmo com todas as transformações e problemas da vida. Era só aquele seu retratinho, sabe? Aquele mesmo da despedida...

sábado, 11 de abril de 2009

O mágico mundo de Fernando Anitelli

Penso que poucos grupos no Brasil são tão completos quanto o Teatro Mágico. O grupo surgiu há seis anos e o show é um espetáculo maravilhoso, que provoca em quem assiste um misto de sensações. A mistura de poesia, música, teatro, dança e arte circense deu certo e na minha opinião o sucesso da banda tem um significado especial. Prova que as pessoas gostam de poesia, que os jovens admiram o belo e que essa não é uma geração tão alienada quanto alguns estudiosos querem que pareça ser.

O que mais me chama atenção na trupe – e isso eu coloquei na minha matéria que saiu no Diário da Manhã - é a capacidade de mobilizar jovens e adolescentes que as palavras de Fernando Anitelli possuem. Conheci muitos fãs do grupo. Todos eles falam de algum tipo de transformação provocada pelas mensagens d’O Teatro Mágico. Grupos se formam para ajudar o próximo, para poetar, para sorrir. E isso consegue ser ainda mais belo que os movimentos delicados de Gabriela Veiga no tecido – e olha que a moça sabe fazer coisas lindas pendurada num pedaço de pano, como bem dá para ver na foto acima.

Então chega de conversa fiada. A pedido de alguns raros de Goiás, resolvi postar a entrevista integral que fiz com o criador e vocalista do Teatro Mágico, Fernando Anitelli. As fotos são de Mariana Oliveira - pessoa rara mesmo. Para os fãs, que me ajudaram com a matéria do jornal que saiu antes do show, muita coisa é batida e nem tem lá muita novidade. Para quem não conhece o trabalho da trupe, vale a pena ler. Então é isso. Senhoras e senhores, com vocês, O Poeta.

Lídia AmorimComo surgiu O Teatro Mágico?

Anitelli - O Teatro Mágico surgiu justamente baseado em saraus, na perspectiva de agregar artistas, músicos, atores, nessa idéia de juntar tudo num mesmo ambiente, numa coisa só. A partir desses saraus, que realizávamos entre amigos, eu resolvi montar o Teatro Mágico. (Aqui Anitelli me pede para esperar um minuto e diz delicadamente para outra pessoa: "Coloca trinta de gasolina, por favor?") O pessoal gostava muito dos saraus e eu percebi que a gente tinha aquela capacidade de misturar os instrumentos, as expressões artísticas, tudo. E inspirado nisso eu resolvi montar o Teatro Mágico. Convidei alguns amigos que também participavam dos saraus, amigos que faziam teatro, outros que faziam circo e desde 2003 até hoje a gente está aí nesse caminho cada vez mais agregando outros músicos, outros artistas, buscando sempre amadurecer, melhorar o trabalho.

LAO grupo defende a liberdade de acesso à cultura. As músicas estão todas disponíveis para baixar no site e os CDs são vendidos a preços populares. Como o grupo se mantém?

Anitelli - Tem que ter um grupo disposto a enfrentar todas as adversidades, disposto a aprender sempre com o outro. Um grupo que saiba ser paciente, que saiba que arte não é esse estereótipo que muitas vezes as mídias buscam vender do artista famoso que simplesmente faz uma apresentação e não está nem aí para o público. Não. Nosso trabalho é tranquilo, é muito pé no chão, feito de maneira muito clara para o nosso público. A gente consegue fazer as coisas e se movimentar vendendo os ingressos (dos shows), vendendo os CDs a preços populares, camisetas, todas essas coisas. A gente não tem apoio nem patrocínio, mas isso é interessante porque o artista sempre teve que viver esperando o bom-humor de alguém, de alguma rádio, o bom-humor de alguém de alguma TV para poder mostrar o trabalho dele. Na verdade o que acontece é que nenhuma rádio coloca a gente na programação porque a gente não paga jabá. Nenhuma TV coloca a gente na programação, porque a gente não paga jabá. A gente participa como mídia espontânea em alguns programas, mas na programação mesmo a gente não entra. Quando se usa a internet como ferramenta livre, capaz de colocar o artista frente a frente com o público, tudo muda. Aí a gente passa a ter um meio de comunicação, que não é de massa, que não alcança tanta gente ainda, mas que já ajuda. Se o artista tem talento vai permanecer, se não tem talento, vai cada vez mais perder o espaço. A tendência é diminuir esses artistas pré-programados que tem no mercado. Vai prevalecer o artista que tem uma relação honesta com a própria arte, com o seu público. A gente consegue conversar sobre música, falar sobre nossas afetividades, articular debates.

LAVocê concorda então que a tendência é a internet mudar totalmente o jeito de o artista divulgar seu trabalho...

Anitelli - Sem dúvida alguma. O músico sempre esperou o bom-humor de alguém que falasse: “Olha, eu tenho um contato na televisão ou no rádio. Tenho um amigo, um parente, um sobrinho”. Essa coisa do amiguismo, do contato, isso tudo começa a se perder a partir do momento em que você faz um trabalho consistente e que você sabe que pode realizar de maneira responsável, com o pé no chão, sem cair nas armadilhas que a mídia coloca, de ter que dizer que artista é aquele que tem que aparecer na televisão num programa de domingo e se joga numa bacia d’água.

LAO trabalho do Teatro Mágico tem conseguido atingir o público jovem e provocado certa mobilização. Em Goiânia e em Brasília, por exemplo, existe o TruPcando em Sonhos, em que jovens se reúnem para fazer música, poesia, arte circense e ajudar o próximo. Você esperava que fosse gerar tudo isso?

Anitelli - Esse tipo de mobilização eu não esperava. Quando criei o projeto do Teatro Mágico eu achava que ele tinha força suficiente para se manter vivo, para se fazer acontecer. Agora, a maneira como o público ia responder às nossas mensagens, às músicas, eu não sabia. Fico feliz da vida de ver jovens, adolescentes, universitários, os pais, os avós, gente se interessando por literatura, por circo. Gente dando outros valores para a arte, para a cultura, fazendo saraus. Para mim isso é fabuloso, é uma resposta linda desse trabalho que começou do nada. Isso mostra que o projeto tem um conceito que vai além daquilo que a gente está mostrando no palco. É aquele conceito do jovem brincar de pensar. As pessoas reconhecem que o Teatro Mágico não é só uma apresentação em determinado dia com pessoas coloridas e felizes. O Teatro Mágico é exatamente como aquele jovem vai se colocar, que personagem ele vai escolher para viver o dia-a-dia dele. Eu acho que o Teatro Mágico faz essa indagação a todas as pessoas que têm contato com ele. E eu fico feliz da vida. Cada vez mais essa responsabilidade pesa na gente, porque não cantamos para um ou dois. É um monte de gente que está ali e se interessando em fazer algo pelo próximo. Pensando assim a idéia é atingir cada vez mais e mais pessoas. Isso para nós é ótimo.

LAO projeto do Teatro Mágico é uma trilogia. Vocês já lançaram o segundo álbum, e logo lançarão o terceiro. Como vai ser depois disso? O grupo vai acabar?

Anitelli - Na verdade não é que a gente vai parar. Eu quando pensei o Teatro Mágico pensei numa trilogia que pudesse traduzir algumas questões sociais, almáticas, em relação aos preconceitos de opção sexual, de cor, contra a mulher, a questão do meio em que vive o homem, do trabalho. Eu acho que tem tanta coisa importante para a gente falar. Eu não vou falar de coisa feia, que coisa feia o tempo todo já tem. Então vou falar de fantasia. Ao invés de falar das coisas que destroem, que machucam, vamos colocar a realidade de uma forma para o povo aprender, para ter informação. Para se mobilizar contra essas coisas. Senão a gente fica também vivendo num país de sorrisos e alegrias quando na verdade não é nada disso. Eu acredito que as nossas ações não podem ser impensadas. O artista tem uma responsabilidade social. Ele não pode fazer uma arte que entra no palco e blá blá blá, vai embora e está de bom tamanho. Não, não é isso. As pessoas têm que sair dali se perguntando “o que estou fazendo e o que não estou fazendo? Onde posso melhorar?”.

LAE o terceiro e último álbum? O que o público pode esperar?

Anitelli - O primeiro foi um questionar do indivíduo no coletivo, onde o tudo é uma coisa só. Tinha a poesia, a brincadeira, o sarau. No segundo o personagem se identifica com as mazelas do dia-a-dia, as coisas mais urbanas, mais realistas, mais preto-e-branco, com tons pastéis. Acho que o Terceiro Ato vem com uma mescla disso tudo, mas também com propostas de como a gente pode melhorar esse mundo. Não somente narrando os fatos, mas também modificando o meio. Mas só fiz duas músicas, não tenho letra nenhuma ainda. Estamos nos preparando para gravar no segundo semestre desse ano e no começo do ano que vem fazer um lançamento com qualidade, com dignidade.

LA - Como foi estar no Fórum Social Mundial?

Anitelli - É uma experiência que eu acho que todo artista tem que passar. Se colocar na posição do cidadão que está ali disposto a aprender sobre as dificuldades do próximo, a pensar junto com o próximo. No Fórum Social Mundial eu pude me articular com outros músicos e a gente também se encontrou com o pessoal de software livre, da economia solidária, e pensamos o Fórum de MPB, o Fórum de Música para Baixar. Todo artista que tem essa dialética de liberar as músicas para download gratuito, para incentivar o acesso gratuito à cultura, é convidado a se unir a nós. Por isso tudo o FSM foi inspirador. Ele une pessoas de todas as idades, credos, cor, raça, cada um trazendo suas diferenças e dificuldades. É momento de não só a música, mas a cultura em geral aprimorar debates.

LAVocê trabalhava num banco, largou tudo e hoje se dedica do Teatro Mágico. Como foi isso? Foi um processo ou você simplesmente chutou o balde?

Anitelli - Trabalhei por sete anos na parte de produção visual de um banco. E foi ficando insustentável deixar a música apenas como um hobby. Quando a arte faz o chamado dela, ela fala: “De hobby, em segundo plano, eu não vou ficar. Ou me assume, ou some”. Eu já estava a algum tempo envolvido com arte, mas era sempre naquele espaço que sobrava. De noite quando eu não tinha nada para fazer, o resto da minha tarde, as madrugadas. E chegou um momento que aquilo não foi mais suportável. E eu percebi de uma vez por todas que o que eu queria na minha vida era mexer com arte. Eu estava inserido naquele meio, mas batia uma insegurança por largar o emprego por uma coisa que era um ponto de interrogação. Aí eu pensei: é, vai ter que ser assim mesmo, vou ter que assumir isso, gosto de fazer isso, vou me jogar. Trabalhei de garçom nos Estados Unidos, tocava violão nas ruas, na calçada, em shoping, em restaurante, até começar a gravar o CD. E a partir de então a coisa foi acontecendo, e as pessoas começaram a ouvir e a gostar do que eu fazia. Onde tivesse que estar para fazer o projeto acontecer, a gente estava. E em oito meses de lançamento do Segundo Ato foram 2 milhões de downloads e 135 mil CDs vendidos do nosso primeiro trabalho, o Entrada para Raros. A gente sabe que tem público para isso, e um público curioso, cansado das mesmas imbecilidades que a mídia descarrega sobre nós diariamente.

domingo, 5 de abril de 2009

O sussurro

Um sussurro no meio de tanta porrada. Uma pausa para respirar. Para sentir as coisas ao invés de apenas passar por elas. Nada provoca tanto os sentidos quanto o sussurro. Aquele sussurro ao pé do ouvido, que provoca um arrepio bom, mexe com o corpo todo. Quando dei esse nome ao blog, o fiz com o desejo de que minhas palavras provocassem um pouco das sensações intensas que o sussurro é capaz de provocar. A própria palavra sussurro é macia, doce, calma. Mesmo sendo dita em alto e bom som, ela já tem aquele tom macio... que de tão sutil se torna intenso. Experimente dizer SUS-SUR-RO.
Quando abandono o blog, é porque não consigo me atentar aos sussurros diários. Às vezes o estresse é tão grande e a desilusão tão profunda, que não consigo achar palavras que não sejam ásperas e desesperançosas. Sério, as pessoas se dedicam tanto a mostrar às outras que o mundo é uma merda e que não somos nada, que muitas vezes acreditamos nessa balela. Ainda bem que existe alguma luz, força ou entidade que não nos deixa desistir. Pode reparar. Sempre que estamos prestes a desistir dos nossos sonhos, algum sinal aparece. Alguma coisa acontece para nos mostrar que idiotice é desistir, é não lutar. Pode ser uma música, um filme, um tipo de pauta ou uma pessoa - ou várias delas. Parece que Deus nos manda alguns de seus anjos que estão por aqui disfarçados de gente.

Resolvi mudar a cara do blog. Me cansei do laranja. De repente quis algo mais suave, mais azul. Mais calmo. Resolvi mudar porque eu mesma tenho mudado bastante. Não é para melhor nem para pior. É só mudança. De repente bateu em mim que acabou há um ano a faculdade, e eu não sou mais uma adolescente. E a vida sabe ser dura, as pessoas sabem ser intolerantes, e não somos mais estagiários ou estudantes. Somos profissionais. É como disse minha psicóloga: "Bem-vinda, a vida adulta é isso". Só não quero ser desbotada. Quero que os tons pastéis estejam presentes na minha vida como sinal de calma, da calma que eu preciso tanto. Mas não como desesperança ou falta de intensidade. Quero, nas palavras d'O Teatro Mágico "acordar brilhando cada dia mais forte". Sem perder a leveza.

A foto da cabeça, aí em cima, é uma das fotos mais lindas que já vi. O trabalho é de um amigo que não vejo há tempos, Julius, que estudava Artes Visuais e fez francês comigo. Boas lembranças de tardes de papos felizes no bosque da UFG. Agora enquanto estou aqui, tentando amadurecer, Julius trancou o curso por problemas pessoais e está em sua cidade natal, Jataí. Espero do fundo do coração que no meio das turbulências de nossas vidas, um dia nos encontremos de novo para bater papo. Só sentar em qualquer lugar e falar sobre as bobagens da vida. Rir de nós mesmos. A imagem da cabeça teve que ser cortada para caber lá. Ela inteira está aqui embaixo. Todo mundo merece vê-la.

Passei horas ontem procurando uma boa imagem. Não achava de jeito nenhum. Foi quando esbarrei em arquivos antigos e encontrei essa foto. Não tenho o nome dela arquivado, nada. Mas ela exprime bem o sussurro. Não é algo para remeter ao sexual, e sim ao sensual, sensorial, sutil. É o abraço sublime, a união leve. O amor. Aquele abraço e sentimento pelo qual todos esperamos. A foto, assim como o sussurro, é intensa e ao mesmo tempo delicada. É linda. É arte. Assim como gostaríamos que fossem nossas vidas.


*Up: A foto faz parte de um ensaio chamado O corpo erotizado como objeto de arte. E tem o nome de EMBRACE.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Conectou! Blog Nota 10

Depois de um mês e meio sem postar nada, eis que ressurjo das cinzas, e com boas novidades. Uma leitora muito muito especial, com ótimo senso crítico e delicioso senso de humor, parceira de alguns bons papos virtuais, me deu um grande presente: o selo Conectou! Blog Nota 10, esse aí do lado. Lá de São Luís, no Maranhão, a jornalista Liliam Freitas, do P.O.N.T.O I.N.I.C.I.A.L, sempre me dá força com seus comentários e incentivos. Valeu, parceira!


Mas não pensem que o selinho vem e é só alegria e agradecimento. Ele vem com uma cobrança para que o blog seja nota Dez e por textos bons, legíveis, relevantes e inteligentes. E como manda a corrente do bem o contemplado com o selo tem as seguintes coisas a fazer:
* Escrever um post, anunciando que recebeu o selo, exibindo-o;
* Indicar o selo para exatamente 5 blogs, e,
* Avisar aos blogs contemplados.

Eu demorei pra caramba porque teria que escolher apenas 5 Blogs nesse momento, e eu tenho o privilégio de ter mais de 5 amigos geniais que escrevem coisas maravilhosas.
Mas tive que escolher, e aí vai.

Perhaps, perhaps perhaps: Não é rasgação de seda, mas minha marmota já escrevia bem humor, e me surpreendeu agora com alguns textos lindos e cheios de poesia. London está inspirando meu roedor amado ^^

Sobre algumas Histórias:Textos muito bem escritos, comentários inteligentes, ironia fina. Um dos colegas que mais admiro, Rodrigo Alves

Erika Lettry : Sem puxa-saquismo, não tenho culpa se esse casal é tudo de bom. Essa menina emociona e faz rir. Textos leves e gracinha, delícia de ler.

Outra Linha: Fred Leão e seus textos cheios de humor ácido...Sempre orna com qualquer momento do dia, sem falar que lava a alma. Atóron...hehehehehe

Ana Flávia Alberton: Poetisa do simples e do sutil. Observadora do complicado, do sofisticado. Textos para se deliciar.