sábado, 11 de abril de 2009

O mágico mundo de Fernando Anitelli

Penso que poucos grupos no Brasil são tão completos quanto o Teatro Mágico. O grupo surgiu há seis anos e o show é um espetáculo maravilhoso, que provoca em quem assiste um misto de sensações. A mistura de poesia, música, teatro, dança e arte circense deu certo e na minha opinião o sucesso da banda tem um significado especial. Prova que as pessoas gostam de poesia, que os jovens admiram o belo e que essa não é uma geração tão alienada quanto alguns estudiosos querem que pareça ser.

O que mais me chama atenção na trupe – e isso eu coloquei na minha matéria que saiu no Diário da Manhã - é a capacidade de mobilizar jovens e adolescentes que as palavras de Fernando Anitelli possuem. Conheci muitos fãs do grupo. Todos eles falam de algum tipo de transformação provocada pelas mensagens d’O Teatro Mágico. Grupos se formam para ajudar o próximo, para poetar, para sorrir. E isso consegue ser ainda mais belo que os movimentos delicados de Gabriela Veiga no tecido – e olha que a moça sabe fazer coisas lindas pendurada num pedaço de pano, como bem dá para ver na foto acima.

Então chega de conversa fiada. A pedido de alguns raros de Goiás, resolvi postar a entrevista integral que fiz com o criador e vocalista do Teatro Mágico, Fernando Anitelli. As fotos são de Mariana Oliveira - pessoa rara mesmo. Para os fãs, que me ajudaram com a matéria do jornal que saiu antes do show, muita coisa é batida e nem tem lá muita novidade. Para quem não conhece o trabalho da trupe, vale a pena ler. Então é isso. Senhoras e senhores, com vocês, O Poeta.

Lídia Amorim – Como surgiu O Teatro Mágico?

Anitelli - O Teatro Mágico surgiu justamente baseado em saraus, na perspectiva de agregar artistas, músicos, atores, nessa idéia de juntar tudo num mesmo ambiente, numa coisa só. A partir desses saraus, que realizávamos entre amigos, eu resolvi montar o Teatro Mágico. (Aqui Anitelli me pede para esperar um minuto e diz delicadamente para outra pessoa: "Coloca trinta de gasolina, por favor?") O pessoal gostava muito dos saraus e eu percebi que a gente tinha aquela capacidade de misturar os instrumentos, as expressões artísticas, tudo. E inspirado nisso eu resolvi montar o Teatro Mágico. Convidei alguns amigos que também participavam dos saraus, amigos que faziam teatro, outros que faziam circo e desde 2003 até hoje a gente está aí nesse caminho cada vez mais agregando outros músicos, outros artistas, buscando sempre amadurecer, melhorar o trabalho.

LA – O grupo defende a liberdade de acesso à cultura. As músicas estão todas disponíveis para baixar no site e os CDs são vendidos a preços populares. Como o grupo se mantém?

Anitelli - Tem que ter um grupo disposto a enfrentar todas as adversidades, disposto a aprender sempre com o outro. Um grupo que saiba ser paciente, que saiba que arte não é esse estereótipo que muitas vezes as mídias buscam vender do artista famoso que simplesmente faz uma apresentação e não está nem aí para o público. Não. Nosso trabalho é tranquilo, é muito pé no chão, feito de maneira muito clara para o nosso público. A gente consegue fazer as coisas e se movimentar vendendo os ingressos (dos shows), vendendo os CDs a preços populares, camisetas, todas essas coisas. A gente não tem apoio nem patrocínio, mas isso é interessante porque o artista sempre teve que viver esperando o bom-humor de alguém, de alguma rádio, o bom-humor de alguém de alguma TV para poder mostrar o trabalho dele. Na verdade o que acontece é que nenhuma rádio coloca a gente na programação porque a gente não paga jabá. Nenhuma TV coloca a gente na programação, porque a gente não paga jabá. A gente participa como mídia espontânea em alguns programas, mas na programação mesmo a gente não entra. Quando se usa a internet como ferramenta livre, capaz de colocar o artista frente a frente com o público, tudo muda. Aí a gente passa a ter um meio de comunicação, que não é de massa, que não alcança tanta gente ainda, mas que já ajuda. Se o artista tem talento vai permanecer, se não tem talento, vai cada vez mais perder o espaço. A tendência é diminuir esses artistas pré-programados que tem no mercado. Vai prevalecer o artista que tem uma relação honesta com a própria arte, com o seu público. A gente consegue conversar sobre música, falar sobre nossas afetividades, articular debates.

LA – Você concorda então que a tendência é a internet mudar totalmente o jeito de o artista divulgar seu trabalho...

Anitelli - Sem dúvida alguma. O músico sempre esperou o bom-humor de alguém que falasse: “Olha, eu tenho um contato na televisão ou no rádio. Tenho um amigo, um parente, um sobrinho”. Essa coisa do amiguismo, do contato, isso tudo começa a se perder a partir do momento em que você faz um trabalho consistente e que você sabe que pode realizar de maneira responsável, com o pé no chão, sem cair nas armadilhas que a mídia coloca, de ter que dizer que artista é aquele que tem que aparecer na televisão num programa de domingo e se joga numa bacia d’água.

LA – O trabalho do Teatro Mágico tem conseguido atingir o público jovem e provocado certa mobilização. Em Goiânia e em Brasília, por exemplo, existe o TruPcando em Sonhos, em que jovens se reúnem para fazer música, poesia, arte circense e ajudar o próximo. Você esperava que fosse gerar tudo isso?

Anitelli - Esse tipo de mobilização eu não esperava. Quando criei o projeto do Teatro Mágico eu achava que ele tinha força suficiente para se manter vivo, para se fazer acontecer. Agora, a maneira como o público ia responder às nossas mensagens, às músicas, eu não sabia. Fico feliz da vida de ver jovens, adolescentes, universitários, os pais, os avós, gente se interessando por literatura, por circo. Gente dando outros valores para a arte, para a cultura, fazendo saraus. Para mim isso é fabuloso, é uma resposta linda desse trabalho que começou do nada. Isso mostra que o projeto tem um conceito que vai além daquilo que a gente está mostrando no palco. É aquele conceito do jovem brincar de pensar. As pessoas reconhecem que o Teatro Mágico não é só uma apresentação em determinado dia com pessoas coloridas e felizes. O Teatro Mágico é exatamente como aquele jovem vai se colocar, que personagem ele vai escolher para viver o dia-a-dia dele. Eu acho que o Teatro Mágico faz essa indagação a todas as pessoas que têm contato com ele. E eu fico feliz da vida. Cada vez mais essa responsabilidade pesa na gente, porque não cantamos para um ou dois. É um monte de gente que está ali e se interessando em fazer algo pelo próximo. Pensando assim a idéia é atingir cada vez mais e mais pessoas. Isso para nós é ótimo.

LA – O projeto do Teatro Mágico é uma trilogia. Vocês já lançaram o segundo álbum, e logo lançarão o terceiro. Como vai ser depois disso? O grupo vai acabar?

Anitelli - Na verdade não é que a gente vai parar. Eu quando pensei o Teatro Mágico pensei numa trilogia que pudesse traduzir algumas questões sociais, almáticas, em relação aos preconceitos de opção sexual, de cor, contra a mulher, a questão do meio em que vive o homem, do trabalho. Eu acho que tem tanta coisa importante para a gente falar. Eu não vou falar de coisa feia, que coisa feia o tempo todo já tem. Então vou falar de fantasia. Ao invés de falar das coisas que destroem, que machucam, vamos colocar a realidade de uma forma para o povo aprender, para ter informação. Para se mobilizar contra essas coisas. Senão a gente fica também vivendo num país de sorrisos e alegrias quando na verdade não é nada disso. Eu acredito que as nossas ações não podem ser impensadas. O artista tem uma responsabilidade social. Ele não pode fazer uma arte que entra no palco e blá blá blá, vai embora e está de bom tamanho. Não, não é isso. As pessoas têm que sair dali se perguntando “o que estou fazendo e o que não estou fazendo? Onde posso melhorar?”.

LA – E o terceiro e último álbum? O que o público pode esperar?

Anitelli - O primeiro foi um questionar do indivíduo no coletivo, onde o tudo é uma coisa só. Tinha a poesia, a brincadeira, o sarau. No segundo o personagem se identifica com as mazelas do dia-a-dia, as coisas mais urbanas, mais realistas, mais preto-e-branco, com tons pastéis. Acho que o Terceiro Ato vem com uma mescla disso tudo, mas também com propostas de como a gente pode melhorar esse mundo. Não somente narrando os fatos, mas também modificando o meio. Mas só fiz duas músicas, não tenho letra nenhuma ainda. Estamos nos preparando para gravar no segundo semestre desse ano e no começo do ano que vem fazer um lançamento com qualidade, com dignidade.

LA - Como foi estar no Fórum Social Mundial?

Anitelli - É uma experiência que eu acho que todo artista tem que passar. Se colocar na posição do cidadão que está ali disposto a aprender sobre as dificuldades do próximo, a pensar junto com o próximo. No Fórum Social Mundial eu pude me articular com outros músicos e a gente também se encontrou com o pessoal de software livre, da economia solidária, e pensamos o Fórum de MPB, o Fórum de Música para Baixar. Todo artista que tem essa dialética de liberar as músicas para download gratuito, para incentivar o acesso gratuito à cultura, é convidado a se unir a nós. Por isso tudo o FSM foi inspirador. Ele une pessoas de todas as idades, credos, cor, raça, cada um trazendo suas diferenças e dificuldades. É momento de não só a música, mas a cultura em geral aprimorar debates.

LA – Você trabalhava num banco, largou tudo e hoje se dedica do Teatro Mágico. Como foi isso? Foi um processo ou você simplesmente chutou o balde?

Anitelli - Trabalhei por sete anos na parte de produção visual de um banco. E foi ficando insustentável deixar a música apenas como um hobby. Quando a arte faz o chamado dela, ela fala: “De hobby, em segundo plano, eu não vou ficar. Ou me assume, ou some”. Eu já estava a algum tempo envolvido com arte, mas era sempre naquele espaço que sobrava. De noite quando eu não tinha nada para fazer, o resto da minha tarde, as madrugadas. E chegou um momento que aquilo não foi mais suportável. E eu percebi de uma vez por todas que o que eu queria na minha vida era mexer com arte. Eu estava inserido naquele meio, mas batia uma insegurança por largar o emprego por uma coisa que era um ponto de interrogação. Aí eu pensei: é, vai ter que ser assim mesmo, vou ter que assumir isso, gosto de fazer isso, vou me jogar. Trabalhei de garçom nos Estados Unidos, tocava violão nas ruas, na calçada, em shoping, em restaurante, até começar a gravar o CD. E a partir de então a coisa foi acontecendo, e as pessoas começaram a ouvir e a gostar do que eu fazia. Onde tivesse que estar para fazer o projeto acontecer, a gente estava. E em oito meses de lançamento do Segundo Ato foram 2 milhões de downloads e 135 mil CDs vendidos do nosso primeiro trabalho, o Entrada para Raros. A gente sabe que tem público para isso, e um público curioso, cansado das mesmas imbecilidades que a mídia descarrega sobre nós diariamente.

domingo, 5 de abril de 2009

O sussurro

Um sussurro no meio de tanta porrada. Uma pausa para respirar. Para sentir as coisas ao invés de apenas passar por elas. Nada provoca tanto os sentidos quanto o sussurro. Aquele sussurro ao pé do ouvido, que provoca um arrepio bom, mexe com o corpo todo. Quando dei esse nome ao blog, o fiz com o desejo de que minhas palavras provocassem um pouco das sensações intensas que o sussurro é capaz de provocar. A própria palavra sussurro é macia, doce, calma. Mesmo sendo dita em alto e bom som, ela já tem aquele tom macio... que de tão sutil se torna intenso. Experimente dizer SUS-SUR-RO.
Quando abandono o blog, é porque não consigo me atentar aos sussurros diários. Às vezes o estresse é tão grande e a desilusão tão profunda, que não consigo achar palavras que não sejam ásperas e desesperançosas. Sério, as pessoas se dedicam tanto a mostrar às outras que o mundo é uma merda e que não somos nada, que muitas vezes acreditamos nessa balela. Ainda bem que existe alguma luz, força ou entidade que não nos deixa desistir. Pode reparar. Sempre que estamos prestes a desistir dos nossos sonhos, algum sinal aparece. Alguma coisa acontece para nos mostrar que idiotice é desistir, é não lutar. Pode ser uma música, um filme, um tipo de pauta ou uma pessoa - ou várias delas. Parece que Deus nos manda alguns de seus anjos que estão por aqui disfarçados de gente.

Resolvi mudar a cara do blog. Me cansei do laranja. De repente quis algo mais suave, mais azul. Mais calmo. Resolvi mudar porque eu mesma tenho mudado bastante. Não é para melhor nem para pior. É só mudança. De repente bateu em mim que acabou há um ano a faculdade, e eu não sou mais uma adolescente. E a vida sabe ser dura, as pessoas sabem ser intolerantes, e não somos mais estagiários ou estudantes. Somos profissionais. É como disse minha psicóloga: "Bem-vinda, a vida adulta é isso". Só não quero ser desbotada. Quero que os tons pastéis estejam presentes na minha vida como sinal de calma, da calma que eu preciso tanto. Mas não como desesperança ou falta de intensidade. Quero, nas palavras d'O Teatro Mágico "acordar brilhando cada dia mais forte". Sem perder a leveza.

A foto da cabeça, aí em cima, é uma das fotos mais lindas que já vi. O trabalho é de um amigo que não vejo há tempos, Julius, que estudava Artes Visuais e fez francês comigo. Boas lembranças de tardes de papos felizes no bosque da UFG. Agora enquanto estou aqui, tentando amadurecer, Julius trancou o curso por problemas pessoais e está em sua cidade natal, Jataí. Espero do fundo do coração que no meio das turbulências de nossas vidas, um dia nos encontremos de novo para bater papo. Só sentar em qualquer lugar e falar sobre as bobagens da vida. Rir de nós mesmos. A imagem da cabeça teve que ser cortada para caber lá. Ela inteira está aqui embaixo. Todo mundo merece vê-la.

Passei horas ontem procurando uma boa imagem. Não achava de jeito nenhum. Foi quando esbarrei em arquivos antigos e encontrei essa foto. Não tenho o nome dela arquivado, nada. Mas ela exprime bem o sussurro. Não é algo para remeter ao sexual, e sim ao sensual, sensorial, sutil. É o abraço sublime, a união leve. O amor. Aquele abraço e sentimento pelo qual todos esperamos. A foto, assim como o sussurro, é intensa e ao mesmo tempo delicada. É linda. É arte. Assim como gostaríamos que fossem nossas vidas.


*Up: A foto faz parte de um ensaio chamado O corpo erotizado como objeto de arte. E tem o nome de EMBRACE.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Conectou! Blog Nota 10

Depois de um mês e meio sem postar nada, eis que ressurjo das cinzas, e com boas novidades. Uma leitora muito muito especial, com ótimo senso crítico e delicioso senso de humor, parceira de alguns bons papos virtuais, me deu um grande presente: o selo Conectou! Blog Nota 10, esse aí do lado. Lá de São Luís, no Maranhão, a jornalista Liliam Freitas, do P.O.N.T.O I.N.I.C.I.A.L, sempre me dá força com seus comentários e incentivos. Valeu, parceira!


Mas não pensem que o selinho vem e é só alegria e agradecimento. Ele vem com uma cobrança para que o blog seja nota Dez e por textos bons, legíveis, relevantes e inteligentes. E como manda a corrente do bem o contemplado com o selo tem as seguintes coisas a fazer:
* Escrever um post, anunciando que recebeu o selo, exibindo-o;
* Indicar o selo para exatamente 5 blogs, e,
* Avisar aos blogs contemplados.

Eu demorei pra caramba porque teria que escolher apenas 5 Blogs nesse momento, e eu tenho o privilégio de ter mais de 5 amigos geniais que escrevem coisas maravilhosas.
Mas tive que escolher, e aí vai.

Perhaps, perhaps perhaps: Não é rasgação de seda, mas minha marmota já escrevia bem humor, e me surpreendeu agora com alguns textos lindos e cheios de poesia. London está inspirando meu roedor amado ^^

Sobre algumas Histórias:Textos muito bem escritos, comentários inteligentes, ironia fina. Um dos colegas que mais admiro, Rodrigo Alves

Erika Lettry : Sem puxa-saquismo, não tenho culpa se esse casal é tudo de bom. Essa menina emociona e faz rir. Textos leves e gracinha, delícia de ler.

Outra Linha: Fred Leão e seus textos cheios de humor ácido...Sempre orna com qualquer momento do dia, sem falar que lava a alma. Atóron...hehehehehe

Ana Flávia Alberton: Poetisa do simples e do sutil. Observadora do complicado, do sofisticado. Textos para se deliciar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Formigas


Ele estava ali, parado na esquina, olhar perdido no horizonte. De vez em quando conversava com um buraco minúsculo no poste de cimento. Mas as formigas – ah, essas malditas! – interrompiam o diálogo que era muito sério, na verdade uma conversa de homem pra homem. Desistiu do papo, discussão que nunca teve coragem de ter de verdade. Do real alvo de sua indignação ele sempre fugiu: “Não vale a pena me desgastar pelo covarde”.
E o olhar voltava a se perder na linha do nada. Ali, em pleno centro da cidade, onde todos passavam em seus carros, ocupados com as próprias vidas, morrendo aos poucos em seus mundinhos fechados. Ali naquela esquina repleta de barulho de motores, obras, gritos, passadas apressadas. Ninguém o veria naquela esquina. Na verdade, ninguém nunca o viu em lugar nenhum. Homem calado, sempre preferiu estar sozinho, estar só consigo mesmo. Ele mesmo não se trairia, não poderia existir companhia melhor.
E quando descobriu que não só poderia trair-se a si mesmo, como o fez de fato, foi parar ali. Um dia já soube o que queria e o que fazer da própria vida. Agora não sabia mais. Estava sozinho. O emprego não fazia sentido. A mulher que pensava amar não preenchia seu vazio. Tudo o que escolhera não passava de ilusão. Tudo era assim como as nuvens que via ao olhar para cima: meras formas.
Passaram-se 50 anos e a vida não era nada, apenas tempo corrido. Em que momento se perdeu nas linhas do próprio caminho? Não sabia. O que fazer ou para onde ir? Já não sabia mais. Por isso estava ali. Ali, com seu pior pijama, rasgado e desgastado. Sempre invisível. Cabelos desgrenhados, voz grave balbuciando coisas que nem ele mesmo era capaz de entender. E invisível. Parado, sentido apenas os pés no chão e o cheiro da fuligem. Simplesmente parado, agora olhando as malditas formigas, que pequenas e sem significado, insistiam em fazer sentido andando apressadas, mas juntas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Chuva


A vida fica pálida quando nos tornamos realistas e acomodados. Quando trabalhamos o dia todo, nos afogamos e sufocamos de tanto trabalho, depois chegamos em casa cansados e nos isolamos em nossos prédios com janelas cheias de grades. Não pegamos mais fortes chuvas de verão, porque estamos seguros sob um teto confortável ou dentro do carro que nos custa a liberdade. E então para que nos molhar? Para pegar uma pneumonia?
Quando a redação do jornal me deixa desesperada, eu brinco que me dá vontade de sair correndo pelada gritando com os braços para cima na chuva. É a coisa que realmente tenho vontade – sem o exagero da parte de estar pelada. Sinto falta de bancar a louca, e andar pela chuva com a mochila numa sacola para num molhar as coisas, a roupa pingando, os pés descalços e os cabelos ao vento. Até o ano passado eu fazia isso. Hoje, não sei por que motivo, não faço mais. Não tem nada que represente melhor a liberdade para mim do que isso.
Agora chove com força e não me importo com os pingos que vez ou outra batem meio tímidos na minha cara enquanto escrevo de janela aberta. Cheiro de chuva. Vento. O céu. Sinto falta das sensações tão minhas, do que me fazia colorida, peculiar.
Às vezes me sinto desbotada. Quando velhos conhecidos me dizem que estou diferente, eu sei em que. Da minha janela só vejo outras janelas (que vivem fechadas). Estou cercada de prédios e já me senti muitas vezes claustrofóbica no meu novo lar. Em outros momentos, meu corpo fica pesado e sinto uma preguiça tão grande, parece que meus projetos estão distantes de mim. Para ver uma pontinha dos topos das árvores do zoológico, preciso pôr a cabeça para fora da janela e ficar na ponta dos pés. Complicado...

Hoje no fim da tarde me cansei de tanta visão cinza. O céu estava nublado, com aquela cara de que ia desabar a qualquer momento. Decidi dar uma volta até a chuva cair. Queria que caísse o céu numa tempestade de pingos grossos para lavar todo meu pessimismo e descrença. Quando coloquei os pés para fora do prédio, já chuviscava. Pensei: “Maravilha!”. Andei e andei e a pista de caminhada do Horto não acabava mais. E NÃO chovia. Apesar disso fui indo... Pensando na vida, olhando as árvores, o trecho que tantas vezes andei pra chegar até o ponto de ônibus depois de sair da Universitária. E fiz planos. Quando cheguei na entrada de casa, o celular tocou. E todas as bençãos que tenho na vida ficaram ainda mais evidentes. Mesmo sem a chuva – que só agora, às 21h, entra pela minha janela – me senti feliz. Simplesmente porque depois de meses me senti de novo disposta a entrar na tempestade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Capitu



Eu, você, a moça que vende sonhos na padaria, a super top model maravilhosa. Basta um pouco de sensibilidade para que se perceba a Capitu em cada uma de nós. O romance de Machado de Assis não deixa gerações apaixonadas graças às paranóias de Bento Santiago, nem aos superlativos de José Dias. É a moça dos olhos de ressaca, que afogam sempre os leitores. E todas nós temos um pouco desse encantamento.

Sei que já faz algum tempo que acabou a microssérie maluca sobre o livro que a Globo fez, mas ela teve cenas tão deliciosas e mágicas que só agora digeri tudo. A cada quadro, uma fotografia perfeita, com cenas encantadoramente teatrais. Eu já tinha esquecido minha paixão por esse romance, mas por muitas noites a moça da Rua de Matacavalos ficou na minha cabeça na adolescência. Primeiro pelo mistério. Fernando Sabino, na tentativa de tentar esclarecer essa dúvida que nem Machado seria capaz de esclarecer, escreveu tudo em terceira pessoa no romance Amor de Capitu.
Mas será mesmo que tirar as palavras da boca de Bentinho mudaria alguma coisa? Corri e comprei o livro para ver, mas não. Porque as idéias e neuroses do nobre advogado que não quis ser padre ainda estavam ali, só ele foi ouvido. Sempre fiquei pensando o que Capitu diria se pudesse se defender. E na verdade acho que Bento bem que tinha um complexo de inferioridade que fazia com que tivesse essas fantasias malucas. Percebe-se nas entrelinhas que ele se achava bem menos que Capitu. Ela era mulher forte, dona do próprio destino, e não era permitido ser assim. Meu sonho era alguém escrever o ponto de vista de Capitu. Mas ainda bem que Machado não o fez, porque, bem, conhecendo Machado como conheço, sei que ele deixaria as coisas piores com sua fina ironia.
Embora esse mistério seja o que mais intriga a maioria dos leitores, a microssérie mostrou que o romance vai muito além disso. As críticas sobre os costumes da época refletidas na fantástica ironia de Machado de Assis, os quadros perfeitos, as cenas lindíssimas. Euclydes Marinho e Luiz Fernando Carvalho apenas transformaram em imagem as palavras do escritor. Letícia Persiles esteve maravilhosa. Era a Capitu que eu imaginava. Maria Fernanda Cândido também esteve perfeita. E o Bento Santiago de Michel Melamed? Melhor, impossível. Teve muita gente que achou chato, eu, particularmente, me deliciei.


Abaixo, minha cena preferida... Penso que resume como Bento sempre esteve envolvido pelos encantos de Capitu, como essa mulher o atraía, seduzia. Sacada simplesmente maravilhosa da produção...


http://www.youtube.com/watch?v=8NOE8xiC_Bo

sábado, 27 de dezembro de 2008

Natal?

Pensava que era só comigo, mas esse ano ouvi pelo menos cinco pessoas dizendo que não gostam do Natal, ou o consideram triste. Será que antes eu não via isso ou as pessoas estão mesmo mais descrentes? Todo mundo numa correria danada em busca do presente para agradar os outros, mas grande parte dessa gente reclamando de uma coisa estranha no coração, e no dia seguinte: "Acho Natal triste" ou "Não gosto do Natal".
Antes, as luzes da cidade e o cheiro de pipoca na porta da igreja me deixavam feliz, com uma sensação deliciosa de conforto. Mas agora parece que ficou faltando algo, e de repente aquelas luzes não faziam mais tanto sentido, como se tivessem perdido seu brilho.
Muito clichê todo mundo escrevendo sobre o verdadeiro espírito de Natal. Todos os filmes de Natal que têm o mesmo assunto desde sempre. Os especiais de final de ano das emissoras...Tudo tão cansativo. Não sei o que eu queria realmente nessa noite feliz. Talvez quisesse recuperar um pouco da fé que perdi no meio do caminho. Tanta desilusão...
Todo mundo fala em espírito de Natal, em ajudar o próximo. Eu não senti isso esse ano. E o pouco que fiquei sabendo, também me pareceu um grande clichê. E me pareceu meio idiota todo mundo resolver fazer alguma caridade nessa data, quando na verdade as pessoas sentem fome e frio e precisam de atenção e carinho durante todo o ano. É como se pudéssemos ser egoístas, frios, preconceituosos, homofóbicos e cegos durante todo o ano, e levar comida para os pobres no Natal apagasse tudo isso e no próximo ano repetimos tudo e somos igualmente redimidos pela noite de Natal.
O Natal era minha data preferida. Não sei porque deixou de ser, nem onde me perdi no meio disso tudo. Só sei que esse ano senti, como tanta gente, uma grande tristeza. E enquanto arrumava a casa para a noite feliz, o cheiro de ave assando na casa do vizinho invadia minhas narinas. Queria fechar os olhos e pensar que essa era só mais uma noite como outra qualquer. Pensar que ela é especial enquanto eu estava em casa pensando em tudo que não fiz em 2008, sozinha com episódios antigos de seriados, era muito muito ruim. Mas o cheiro do assado invadia tudo só para me provocar, só para me lembrar do que já não sou e nem acredito mais. Era um estupro olfativo, uma ofensa. Mostrava que alguém estava comemorando. Talvez esse alguém fosse mais um que comentasse no dia seguinte como é triste o Natal. Ou talvez seja uma rara pessoa que ainda consegue sentir algo nessa data - que não seja impulso de comprar - e comungar com os outros.