Essa semana fui num ritual Maia para fazer uma matéria. Confesso que no início fiquei bem desconfiada. Vai saber né. Com tanto charlatão e maluco por aí, quando chega alguém com esse papo de ritual a primeira coisa que a gente faz é ficar bem desconfiado. Mas adorei a história da mulher responsável por tudo e o ritual me fez voltar no tempo dois anos atrás. Essa cerimônia era para a Lua, já que era o primeiro dia de lua cheia e foi realizado à noite. A mulher se chama Gabriela, é mexicana, freira dominicana, super envolvida com a cultura Maia que conheceu no sudeste do México, em Chiapas, participa de rituais xamânicos e além de tudo está fazendo um curso de terapia de vidas passadas. Pensa que loucura que não somos na América Latina. Tudo junto e misturado. Se engana quem pensa que essa maluquice deliciosa é só no Brasil. É até um pouco estranho, sabe. No Brasil onde mais se fala em miscigenação, é onde temos mais preconceito e menos orgulho do sangue indígena e negro que carregamos nas veias.
Mas como ia dizendo, o momento do ritual foi uma volta no tempo. Me vi em Cochabamba, na Bolívia, numa comunidade com gente de todo o mundo, xamãs, alternativos, indígenas, curiosos. Mesmo estando num ritual à noite e no Brasil, realizado por uma mexicana, pude sentir de novo as sensações tão intensas de comunhão com a natureza e com tudo que nos envolve que experimentei sob o escaldante sol de meio-dia da Bolívia. Parecia sentir o sol sobre minha cabeça e cada grão de areia sob meus pés. A delícia de não estar separada do universo, mas de estar totalmente integrada a tudo que Deus criou. Tudo parece tão cuidadosamente integrado, ligado.
Isso me deu uma saudade enorme, uma sensação de nostalgia e ao mesmo tempo uma grande alegria de fazer parte do mundo. Não sei o que acontece, mas me sinto tão atraída pela cultura indígena. A cada dia que passa tenho mais e mais vontade de conhecer a fundo essa parte da nossa América Latina, linda, misteriosa, e tão mais sábia que os conquistadores que chegaram por aqui. Dá vontade de gritar, dançar na chuva e comemorar sem motivo aparente, apenas por estar viva.
No mesmo dia falei com minha hermanita boliviana. Engraçado. A cada dia tenho mais certeza de que coincidências são existem. Tudo parece ser obra de uma Força Maior. Nós mesmos fazemos nosso destino, mas essa Força parece nos indicar rumos e usar sinais para nos mostrar que direção é melhor seguir e qual é nosso caminho. Eu sonhando com a Bolívia, chego no msn e depois de muitos e muitos dias sem ter notícias, minha hermanita está on line, falando comigo. Foi rápido, mas muito bonito e me fez sonhar ainda mais com minha super viagem à Bolívia para fazer meu trabalho final de Jornalismo Literário. Meu sonho é mostrar para toda a gente ignorante que me olha com riso sarcástico e diz que não há nada de interessante na Bolívia e também para aqueles que na inocência me perguntam o que tanto me encanta nesse lugar, toda a magia que transformou meu coração e ainda transforma um pouco mais a cada dia. Conhecer, compreender - essas culturas e ao mesmo tempo a mim mesma. Ai que vontade de armar minhas trouxinhas agora mesmo e cair no mundo...
sábado, 15 de novembro de 2008
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Apelo ao assessor
Muito assessor esquece que é jornalista e não tem a menor solidariedade para com o pobre do repórter que precisa entregar uma matéria. Mas o pior é que o assessor impiedoso que faz trabalho mal-feito, também demonstra pouca inteligência. Por alguma dezena de vezes tive que ficar ao telefone imploraaando a assessores para mandar material que beneficiaria a eles próprios. Assessores: o repórter é seu amiguinho e parceiro e não seu inimigo cruel e implacável. Se você teve tempo para mandar o release de um evento, por favor, seja esperto e ajude na divulgação das informações corretas desse evento.
O repórter tem pouco tempo, muita coisa para fazer, gastrite, um editor exigindo a matéria com urgência. Poupe esse ser humano de mais estresse e colabore. Sério, dá vontade de chorar quando a gente pensa que tudo está bem e todas as informações ok, e seu editor te liga para comunicar que elas não estão lá. A pessoa te garantiu que elas estariam lá, a gente infelizmente não pode ficar até o fechamento do caderno para não levar advertência por passar do horário, e aí quando você está em casa desesperado fazendo outros trabalhos, descobre que ahá! As coisas que deveriam estar lá, bonitinhas, não estão.
A gente é repórter, não adivinho. A gente não vai olhar para uma foto e identificá-la, se nem o assessor soube dizer quem são os indivíduos. A gente precisa de boas fotos, que não fiquem quebradinhas no jornal. A gente precisa de programações exatas e organizadas, de informações corretas. Por favor, assessor, colabore. Seja parceiro do repórter, pelo bem do seu evento.
O repórter tem pouco tempo, muita coisa para fazer, gastrite, um editor exigindo a matéria com urgência. Poupe esse ser humano de mais estresse e colabore. Sério, dá vontade de chorar quando a gente pensa que tudo está bem e todas as informações ok, e seu editor te liga para comunicar que elas não estão lá. A pessoa te garantiu que elas estariam lá, a gente infelizmente não pode ficar até o fechamento do caderno para não levar advertência por passar do horário, e aí quando você está em casa desesperado fazendo outros trabalhos, descobre que ahá! As coisas que deveriam estar lá, bonitinhas, não estão.
A gente é repórter, não adivinho. A gente não vai olhar para uma foto e identificá-la, se nem o assessor soube dizer quem são os indivíduos. A gente precisa de boas fotos, que não fiquem quebradinhas no jornal. A gente precisa de programações exatas e organizadas, de informações corretas. Por favor, assessor, colabore. Seja parceiro do repórter, pelo bem do seu evento.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Medo
Eu sinto a violência cada vez mais perto. Quando era criança, pensava que era algo que estivesse só nas guerras civis na África ou nas brigas do Oriente Médio. Em garotos que metralham colegas em escolas estadunidenses. Depois fui vendo pela televisão um monte de desgraça no Eixo Rio-São Paulo, até não agüentar mais assistir a tanta morte nas favelas, assassinatos e todas essas coisas. Ainda achava que estava longe de mim. Mas há alguns dias uma batida de trânsito foi motivo para o pai de uma amiga apanhar até ter afundamento de crânio. Aqui, em Goiânia.
O choque tem me deixado apavorada. Em estado de pânico disfarçado. A gente está ali, sorrindo com os amigos e pensando no perigo da volta para casa. É pavoroso pensar que você está na rua e pode a qualquer momento tornar-se apenas mais um corpo estendido no chão. No dia do meu aniversário, enquanto comemorava numa festa infantil, no quarteirão de baixo mataram um cara. Dizem que foi policial. Dizem também que foi traficante.
Dizem sempre muitas coisas e eu fico cada dia mais sem saber se peço ajuda a policiais ou se corro de medo deles. Tão triste isso... Fiquei uns três meses observando travestis, para um trabalho. Perto, dizem que há tráfico de drogas. Viaturas policiais andam por ali a noite toda. Durante três meses nenhum traficante ameaçou a mim ou ao Carlos, que mora perto e me fez companhia nesse período. As travestis também nunca ofereceram nenhum tipo de ameaça. Chegamos a abordá-las. Só senti medo quando num desses dias de observação uma viatura parou atrás da gente, apontou uma arma, mandou descer do carro com as mãos pra cima e continuou apontando a arma. Ainda bem que eram policiais honestos, que tinham que verificar o que aqueles dois cabeçudos estavam fazendo parados de madrugada justo naquele lugar. Graças a Deus. Mas com tanta coisa acontecendo, com tudo que ouve-se diariamente, eu vi aquela arma apontada pra mim e só pensava naquilo disparando. Congelei de medo.
Quando fui à Bolívia me falaram tanta coisa que me senti indo para o Afeganistão no auge da invasão pelos Estados Unidos. Mas quando cheguei lá vivi os momentos mais tranqüilos do mundo. Me senti em casa, me senti tão em paz. Lá onde falavam que era perigoso não senti metade do pavor que tenho sentido aqui. E eu que achava até pouco tempo atrás que vivia num lugar tranqüilo, me gabava de Goiânia ter paz. É triste. Triste pensar que seu namorado pode ser um cara que vai te matar no futuro. Que um motoqueiro pode te agredir simplesmente porque ficou com vontade. Que nenhum lugar é seguro. Triste pensar que a gente sai e realmente não sabe se e como vai chegar em casa.
O choque tem me deixado apavorada. Em estado de pânico disfarçado. A gente está ali, sorrindo com os amigos e pensando no perigo da volta para casa. É pavoroso pensar que você está na rua e pode a qualquer momento tornar-se apenas mais um corpo estendido no chão. No dia do meu aniversário, enquanto comemorava numa festa infantil, no quarteirão de baixo mataram um cara. Dizem que foi policial. Dizem também que foi traficante.
Dizem sempre muitas coisas e eu fico cada dia mais sem saber se peço ajuda a policiais ou se corro de medo deles. Tão triste isso... Fiquei uns três meses observando travestis, para um trabalho. Perto, dizem que há tráfico de drogas. Viaturas policiais andam por ali a noite toda. Durante três meses nenhum traficante ameaçou a mim ou ao Carlos, que mora perto e me fez companhia nesse período. As travestis também nunca ofereceram nenhum tipo de ameaça. Chegamos a abordá-las. Só senti medo quando num desses dias de observação uma viatura parou atrás da gente, apontou uma arma, mandou descer do carro com as mãos pra cima e continuou apontando a arma. Ainda bem que eram policiais honestos, que tinham que verificar o que aqueles dois cabeçudos estavam fazendo parados de madrugada justo naquele lugar. Graças a Deus. Mas com tanta coisa acontecendo, com tudo que ouve-se diariamente, eu vi aquela arma apontada pra mim e só pensava naquilo disparando. Congelei de medo.
Quando fui à Bolívia me falaram tanta coisa que me senti indo para o Afeganistão no auge da invasão pelos Estados Unidos. Mas quando cheguei lá vivi os momentos mais tranqüilos do mundo. Me senti em casa, me senti tão em paz. Lá onde falavam que era perigoso não senti metade do pavor que tenho sentido aqui. E eu que achava até pouco tempo atrás que vivia num lugar tranqüilo, me gabava de Goiânia ter paz. É triste. Triste pensar que seu namorado pode ser um cara que vai te matar no futuro. Que um motoqueiro pode te agredir simplesmente porque ficou com vontade. Que nenhum lugar é seguro. Triste pensar que a gente sai e realmente não sabe se e como vai chegar em casa.
sábado, 1 de novembro de 2008
Eu sou, nós somos
Quem sou eu? Descobri que sou várias. Ai, nada daquele clichê de mulher multifacetada. Sou uma só e ao mesmo tempo tenho dentro de mim várias outras. Sou aquela que grita e aquela que prefere falar baixinho ao pé do ouvido. Aquela que se esconde e ao mesmo tempo deseja correr na chuva e gritar nua de braços erguidos. Aquela que chora...chora tanto... mas é durona e algumas vezes até má. Sou aquela que ama com intensidade, que se decepciona com facilidade. Que luta pelo quer, mas que às vezes sente um cansaço que amarra e impede de seguir em frente.
Sou paradoxo, metáfora, metonímia e mais todas as figuras de linguagem que algum estudioso inventou para tentar explicar as confusões e sentimentos das pessoas quando se expressam. Sou poesia de amor. Sou o x de uma equação inexplicável.
São tantas definições, tantas. A gente quer tanto se entender, revelar-se ao menos a si mesmo. Que bobagem...as explicações são coisas tão bobas. A gente vive. Somos vários. Somos sem explicação.
Somos jornalistas, advogados. Somos bobos, idiotas. Somos gênios no nosso dia-a-dia. Somos péssimos e somos ótimos.
Não sou a melhor jornalista que conheço. Nem a pior. Ontem me senti, por alguns instantes, a pior. E chorei. Chorei porque não me imagino fazendo outra coisa na vida que não seja escrever. Não me imagino em outra profissão que não seja a de jornalista. Então, se sou péssima, o que fazer? Mas cheguei à conclusão de que não é exatamente isso... Fazemos coisas lindas e fazemos coisas ruins, mas o importante é ter ao menos a consciência tranquila. Ver os erros e tentar corrigir, mas não deixar absolutamente ninguém nesse mundo fazer com que pensemos que somos incapazes. Até porque isso na maioria das vezes é coisa da cabeça da gente. Às vezes as pessoas não querem dizer isso, a gente é que entende assim. As críticas fazem com que a gente cresça, os elogios nem sempre.
Sou um ser narrativo. Essa é uma das minhas mais importantes descobertas sobre mim mesma. Não interessa onde trabalho, não interessa o que eu faça nessa vida. Se trabalho com vendas, com festas, jogando bolinha pra cima no sinal. Eu preciso contar, preciso narrar. Eu vejo histórias por todos os cantos por onde ando, em todas as pessoas com as quais converso. Preciso narrar. Isso precisa estar em algum lugar. Ainda que eu não seja a melhor escritora, nem a melhor jornalista, eu sou o que sou. Tenho sede de aprender e vou melhorar a cada dia. Que me perdoe o leitor pelos meus erros e textos irregulares. Mas preciso escrever. Disso eu nunca vou desistir na vida.
Sou paradoxo, metáfora, metonímia e mais todas as figuras de linguagem que algum estudioso inventou para tentar explicar as confusões e sentimentos das pessoas quando se expressam. Sou poesia de amor. Sou o x de uma equação inexplicável.
São tantas definições, tantas. A gente quer tanto se entender, revelar-se ao menos a si mesmo. Que bobagem...as explicações são coisas tão bobas. A gente vive. Somos vários. Somos sem explicação.
Somos jornalistas, advogados. Somos bobos, idiotas. Somos gênios no nosso dia-a-dia. Somos péssimos e somos ótimos.
Não sou a melhor jornalista que conheço. Nem a pior. Ontem me senti, por alguns instantes, a pior. E chorei. Chorei porque não me imagino fazendo outra coisa na vida que não seja escrever. Não me imagino em outra profissão que não seja a de jornalista. Então, se sou péssima, o que fazer? Mas cheguei à conclusão de que não é exatamente isso... Fazemos coisas lindas e fazemos coisas ruins, mas o importante é ter ao menos a consciência tranquila. Ver os erros e tentar corrigir, mas não deixar absolutamente ninguém nesse mundo fazer com que pensemos que somos incapazes. Até porque isso na maioria das vezes é coisa da cabeça da gente. Às vezes as pessoas não querem dizer isso, a gente é que entende assim. As críticas fazem com que a gente cresça, os elogios nem sempre.
Sou um ser narrativo. Essa é uma das minhas mais importantes descobertas sobre mim mesma. Não interessa onde trabalho, não interessa o que eu faça nessa vida. Se trabalho com vendas, com festas, jogando bolinha pra cima no sinal. Eu preciso contar, preciso narrar. Eu vejo histórias por todos os cantos por onde ando, em todas as pessoas com as quais converso. Preciso narrar. Isso precisa estar em algum lugar. Ainda que eu não seja a melhor escritora, nem a melhor jornalista, eu sou o que sou. Tenho sede de aprender e vou melhorar a cada dia. Que me perdoe o leitor pelos meus erros e textos irregulares. Mas preciso escrever. Disso eu nunca vou desistir na vida.
sábado, 25 de outubro de 2008
De repente...
Olhar fotos antigas, despreocupadamente, dá uma saudade estranha. Saudade na verdade é uma coisa boa de se sentir. É gostoso olhar fotos e objetos do passado e sentir certo torpor, uma nostalgia, aquela cócega no coração que faz a gente suspirar. Mas ao mesmo tempo eu pelo menos sinto uma coisa estranha. Como se tudo estivesse rápido demais, se as pessoas passassem rápido demais pela minha vida e de repente me desse a vontade louca de agarrar tudo de volta, de gritar para essas pessoas que significaram tanto e hoje não estão mais aqui: "Volta, volta!"
Ao mesmo tempo olho para todas as pessoas que estão à minha volta, que significam tanto, e sinto um medo paralisador de que de repente elas não estejam mais ao meu lado. Porque tudo acontece de repente, não mais que de repente. Uma hora estamos de um jeito, no instante seguinte tudo mudou. Dá vontade de gritar: "Fica, fica!". Sinto falta de tanta gente e tantas coisas... Queria poder dizer a todas essas pessoas que passaram que sinto falta delas. Isso não inclui gente que me faz mal. Dessas quero total e absoluta distância.
Tudo passa rápido demais e às vezes não dou conta de assimilar muito bem esse ritmo. A gente viaja, come, bebe, dorme, ri, ama. No meio dessa velocidade vertiginosa, me perco. Entre meus livros, meus sonhos e planos, às vezes não sei mais o que fazer, nem o que é realmente importante. Tenho medo, sabe. Medo. A gente sempre tem milhões de coisas pra fazer e conhece centenas de pessoas, mas na verdade se sente tão sozinho. Somos todos solitários, querendo um pouco de atenção, um pouco de dedicação. Estamos em nossos mundinhos, abrindo neles apenas uma pequena brecha para implorar ao outro, tão solitário e egoísta quanto nós mesmos, um pouco de atenção. Eu tenho medo da solidão. De repente, não mais que de repente, quando as luzes das festas se apagam, os livros se fecham e a gente fica com o próprio vazio e apenas com isso.
Ao mesmo tempo olho para todas as pessoas que estão à minha volta, que significam tanto, e sinto um medo paralisador de que de repente elas não estejam mais ao meu lado. Porque tudo acontece de repente, não mais que de repente. Uma hora estamos de um jeito, no instante seguinte tudo mudou. Dá vontade de gritar: "Fica, fica!". Sinto falta de tanta gente e tantas coisas... Queria poder dizer a todas essas pessoas que passaram que sinto falta delas. Isso não inclui gente que me faz mal. Dessas quero total e absoluta distância.
Tudo passa rápido demais e às vezes não dou conta de assimilar muito bem esse ritmo. A gente viaja, come, bebe, dorme, ri, ama. No meio dessa velocidade vertiginosa, me perco. Entre meus livros, meus sonhos e planos, às vezes não sei mais o que fazer, nem o que é realmente importante. Tenho medo, sabe. Medo. A gente sempre tem milhões de coisas pra fazer e conhece centenas de pessoas, mas na verdade se sente tão sozinho. Somos todos solitários, querendo um pouco de atenção, um pouco de dedicação. Estamos em nossos mundinhos, abrindo neles apenas uma pequena brecha para implorar ao outro, tão solitário e egoísta quanto nós mesmos, um pouco de atenção. Eu tenho medo da solidão. De repente, não mais que de repente, quando as luzes das festas se apagam, os livros se fecham e a gente fica com o próprio vazio e apenas com isso.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A gente sente falta...

Vamos pensar friamente. Hoje, no último capítulo da novela do horário das 18h da Rede Globo, Ciranda de Pedra, não aconteceu nada que fugisse de um final normal de novela. Casamento, crianças felizes, vilão morto ou na cadeia, casal principal junto. Tudo normal – banal. Mas uma coisa me pareceu particularmente bonita: cenas de uma homenagem histórica. Muito bons os momentos em que personagens se tornaram hippies ou lutaram contra a ditadura. Eles foram inseridos na história do Brasil. As pessoas não vivem histórias flutuantes, e sim estão inseridas em contextos. Foi legal mesmo. Mas o mais bacana foram as cenas bucólicas do sem-graça casal principal no mar, bem no finzinho. Seria totalmente previsível se não estivéssemos tão acostumados a não ter nada dessa doçura na vida real.
Foi tão bonito... A novela nunca teve números significativos no ibope, mas para quem não viu, garanto que valeu a pena assistir alguns capítulos. Penso que faz muita falta esse romance inocente, cenas doces. Essa poesia cheia de metáforas da Lygia Fagundes Telles, que escreveu a história no qual se baseou a novela. São minúcias, pequenas coisas em algumas cenas em que eu pensava: “Ah, mas essa Lygia...”.
O final foi bem significativo apesar das cenas que os fãs de novela como eu (admito totalmente) já estão tão acostumados a ver. Mas será que estamos mesmo tão acostumados assim? Há quem diga que o amor não é essa coisa idealizada, esse mito, essa coisa doce e perfeita, e que esse mar de novelas românticas faz a gente se frustrar. Na verdade penso que num é bem isso. O que acontece é que estamos acostumados demais a ser brutos. A gente leva um choque e se assusta demais com a perfeição. Ou simplesmente não dá o menor valor porque é uma coisa tão fora de moda... Eu admito que tenho dificuldade em me relacionar com coisas perfeitas. Eu mesma me sinto tão imperfeita para querer esse amor de novela das seis. Sim, porque de novela das nove todo mundo pode ter. Sexo, sexo e sexo. Selvagem, com as paredes, com as vizinhas, com as galinhas, com o vaso de flores da sua casa. Esse é o amor do horário nobre hoje em dia.
Muita gente acha tosco, e eu mesma reconheço que as produções made in México são bem bobinhas. Mas sinceramente, eu prefiro as besteiras mexicanas ou colombianas, com sentimentos exagerados, à flor da pele, amores urgentes, corações pulsantes, à frieza da maioria dos seriados estadunidenses e dos nossos sucessos do horário nobre. Simplesmente porque sinto falta dessa emoção e desse exagero na vida real.
A gente aprende desde criança a ser racional, a não xingar os outros, a não brigar, a se conter sempre. Paulo Coelho tem razão quando diz que as emoções são cavalos selvagens. Isso mesmo caro leitor. Vire sua cara fria e racional para dizer: “Menina ridícula que vê novelas mexicanas e lê Paulo Coelho”. Mas pense bem quando te digo que mesmo nos meus momentos fuga na tosquice, eu, como você, não sei mais o que é amar. Aprendi a domar meus cavalos selvagens e me arrependo disso.
Mas o bom é que tem coisa não dá para controlar. Quando as emoções transbordam, eu me lembro dessa frase do Paulo Coelho que pelos anos nem recordo mais de que livro é (ou talvez seja um clichê da maioria das obras dele). E sinceramente, esses momentos são libertadores. Como quando você percebe que seu romance não é mais o mesmo e resolve chutar o balde. Quando resolve entregar-se a um sonho antigo. Ou quando assiste ao último capítulo da novela das seis aos prantos. É realmente libertador...
Foi tão bonito... A novela nunca teve números significativos no ibope, mas para quem não viu, garanto que valeu a pena assistir alguns capítulos. Penso que faz muita falta esse romance inocente, cenas doces. Essa poesia cheia de metáforas da Lygia Fagundes Telles, que escreveu a história no qual se baseou a novela. São minúcias, pequenas coisas em algumas cenas em que eu pensava: “Ah, mas essa Lygia...”.
O final foi bem significativo apesar das cenas que os fãs de novela como eu (admito totalmente) já estão tão acostumados a ver. Mas será que estamos mesmo tão acostumados assim? Há quem diga que o amor não é essa coisa idealizada, esse mito, essa coisa doce e perfeita, e que esse mar de novelas românticas faz a gente se frustrar. Na verdade penso que num é bem isso. O que acontece é que estamos acostumados demais a ser brutos. A gente leva um choque e se assusta demais com a perfeição. Ou simplesmente não dá o menor valor porque é uma coisa tão fora de moda... Eu admito que tenho dificuldade em me relacionar com coisas perfeitas. Eu mesma me sinto tão imperfeita para querer esse amor de novela das seis. Sim, porque de novela das nove todo mundo pode ter. Sexo, sexo e sexo. Selvagem, com as paredes, com as vizinhas, com as galinhas, com o vaso de flores da sua casa. Esse é o amor do horário nobre hoje em dia.
Muita gente acha tosco, e eu mesma reconheço que as produções made in México são bem bobinhas. Mas sinceramente, eu prefiro as besteiras mexicanas ou colombianas, com sentimentos exagerados, à flor da pele, amores urgentes, corações pulsantes, à frieza da maioria dos seriados estadunidenses e dos nossos sucessos do horário nobre. Simplesmente porque sinto falta dessa emoção e desse exagero na vida real.
A gente aprende desde criança a ser racional, a não xingar os outros, a não brigar, a se conter sempre. Paulo Coelho tem razão quando diz que as emoções são cavalos selvagens. Isso mesmo caro leitor. Vire sua cara fria e racional para dizer: “Menina ridícula que vê novelas mexicanas e lê Paulo Coelho”. Mas pense bem quando te digo que mesmo nos meus momentos fuga na tosquice, eu, como você, não sei mais o que é amar. Aprendi a domar meus cavalos selvagens e me arrependo disso.
Mas o bom é que tem coisa não dá para controlar. Quando as emoções transbordam, eu me lembro dessa frase do Paulo Coelho que pelos anos nem recordo mais de que livro é (ou talvez seja um clichê da maioria das obras dele). E sinceramente, esses momentos são libertadores. Como quando você percebe que seu romance não é mais o mesmo e resolve chutar o balde. Quando resolve entregar-se a um sonho antigo. Ou quando assiste ao último capítulo da novela das seis aos prantos. É realmente libertador...
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
O bichinho do mau-humor

O bichinho do mau-humor pode entrar no corpo de qualquer pessoa, a qualquer hora. Hoje ele me pegou de jeito o dia todo. Claro que não vou sair descontando nas pessoas à minha volta. Amigos, colegas e familiares geralmente não têm nada a ver com esse mal que pode chegar sem aviso prévio. O cansaço é o melhor alimento para o bichinho do mau-humor. No meu caso, a associação cansaço, fome e sono é o ambiente perfeito para o desenvolvimento de tal ser.
Dormir meia hora depois do almoço no calor infernal dos últimos dias em Goiânia pode piorar tudo. Se vai dormir de dia, o faça quando puder acordar só à noite, quando o clima estiver mais fresco. Ter que levantar da cama e vestir roupa para trabalhar é o fim. Principalmente se for para entrevistar um ser humano apático e que odeia falar. É desesperador.
É como diz Garcia Márquez, "A vida não é a que gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". De fato, algumas pessoas têm uma história de vida incrível, mas por acharem tudo bobo preferem guardar para si. E fazem a gente sofrer para espremer um pouco de história. Isso me dá descrença sem fim. Existem pessoas de olhos brilhantes e pessoas de olhos opacos. Eliane Brum acerta em cheio quando fala isso, e a cada dia que passa percebo mais essas coisas. Não sei explicar o motivo dessa diferença. Mas a gente bate o olho e saca quando a pessoa tem olhos brilhantes e quando tem olhos opacos de quem mesmo tendo vivido coisas bacanas acha tudo banal.
O bichinho do mau-humor nunca se contenta em apenas habitar um corpo. Em alguns momentos ele rói os nervos das pessoas e provoca reações estranhas. No trânsito, por exemplo. Ele vem e dança sob a pele, se sacode entre as carnes da gente. Principalmente às 18h. Eu queria NUNCA precisar sair da minha casa ou trabalho nesse horário. Dizem que às 3h da manhã os demônios estão soltos. Eu discordo. O horário mais propício para o mal é 18h.
O instinto assassino de qualquer ser humano, mesmo que este pratique meditação transcendental ou seja um líder religioso semeador de paz, fica desperto às 18h no trânsito. A cada dia que passa tenho mais certeza que todas as religiões do mundo estão equivocadas ao descrever o inferno. Nada de caldeirões ferventes ou mármores escaldantes. O inferno é um eterno trânsito às 18h. Não existem chamas que atormentem mais o espírito.
E enquanto isso o bichinho do mau-humor se multiplica e se contorce... Hoje pela primeira vez mandei um cara à pqp no trânsito. Horrível isso. Mas quando se xinga alguém desconhecido a plenos pulmões muitos bichinhos do mau-humor morrem. É quase um vermífugo. Dá até alívio, sensação de leveza.
Mas só uma coisa consegue detonar de vez esses seres do mal. Cheiro de lar. Depois de toda a jornada diária, chegar em casa e respirar fundo sentindo o cheio do lar faz com que se esqueça totalmente do bichinho do mau-humor. Para evitar o retorno de tais seres, nada melhor que arrancar fora a roupa que aprisionou nosso corpo durante todo o dia e tomar um banho gelado. Talvez o estresse tenha sido feito para que possamos valorizar os momentos de calmaria. A roupa, para que aprendamos a valorizar o prazer do vento no corpo nu. O mau-humor, para que aprendamos a combater nossos demônios.
Dormir meia hora depois do almoço no calor infernal dos últimos dias em Goiânia pode piorar tudo. Se vai dormir de dia, o faça quando puder acordar só à noite, quando o clima estiver mais fresco. Ter que levantar da cama e vestir roupa para trabalhar é o fim. Principalmente se for para entrevistar um ser humano apático e que odeia falar. É desesperador.
É como diz Garcia Márquez, "A vida não é a que gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". De fato, algumas pessoas têm uma história de vida incrível, mas por acharem tudo bobo preferem guardar para si. E fazem a gente sofrer para espremer um pouco de história. Isso me dá descrença sem fim. Existem pessoas de olhos brilhantes e pessoas de olhos opacos. Eliane Brum acerta em cheio quando fala isso, e a cada dia que passa percebo mais essas coisas. Não sei explicar o motivo dessa diferença. Mas a gente bate o olho e saca quando a pessoa tem olhos brilhantes e quando tem olhos opacos de quem mesmo tendo vivido coisas bacanas acha tudo banal.
O bichinho do mau-humor nunca se contenta em apenas habitar um corpo. Em alguns momentos ele rói os nervos das pessoas e provoca reações estranhas. No trânsito, por exemplo. Ele vem e dança sob a pele, se sacode entre as carnes da gente. Principalmente às 18h. Eu queria NUNCA precisar sair da minha casa ou trabalho nesse horário. Dizem que às 3h da manhã os demônios estão soltos. Eu discordo. O horário mais propício para o mal é 18h.
O instinto assassino de qualquer ser humano, mesmo que este pratique meditação transcendental ou seja um líder religioso semeador de paz, fica desperto às 18h no trânsito. A cada dia que passa tenho mais certeza que todas as religiões do mundo estão equivocadas ao descrever o inferno. Nada de caldeirões ferventes ou mármores escaldantes. O inferno é um eterno trânsito às 18h. Não existem chamas que atormentem mais o espírito.
E enquanto isso o bichinho do mau-humor se multiplica e se contorce... Hoje pela primeira vez mandei um cara à pqp no trânsito. Horrível isso. Mas quando se xinga alguém desconhecido a plenos pulmões muitos bichinhos do mau-humor morrem. É quase um vermífugo. Dá até alívio, sensação de leveza.
Mas só uma coisa consegue detonar de vez esses seres do mal. Cheiro de lar. Depois de toda a jornada diária, chegar em casa e respirar fundo sentindo o cheio do lar faz com que se esqueça totalmente do bichinho do mau-humor. Para evitar o retorno de tais seres, nada melhor que arrancar fora a roupa que aprisionou nosso corpo durante todo o dia e tomar um banho gelado. Talvez o estresse tenha sido feito para que possamos valorizar os momentos de calmaria. A roupa, para que aprendamos a valorizar o prazer do vento no corpo nu. O mau-humor, para que aprendamos a combater nossos demônios.
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