sexta-feira, 8 de março de 2013

A mulher habitada, a mulher habitante Gioconda Belli, mais que genial



"Rompo este huevo y nace la mujer y nace el hombre. Y juntos vivirán y morirán. Pero nacen nuevamente. Nacerán y volverán a morir y otra vez nacerán. Y nunca dejarán de nacer, porque la muerte es mentira."

Memorias del Fuego - Eduardo Galeano

Depois de alguns anos e umas tantas experiências vividas, voltei a ler A mulher habitada de Gioconda Belli. E uma vez mais me emocionei. Literatura orgásmica, deliciosa, forte e delicada. 

Realista sem abrir mão do fantástico, Gioconda nos envolve com a história de Itzá, uma indígena que reencarna numa laranjeira e por meio dos seus frutos, entra em Lavínia, uma jovem burguesa nicaraguense. A construção da personagem Itzá, mulher indígena revolucionária que morre lutando ao lado do seu companheiro, se mescla com a construção da personagem Lavínia, que busca seu lugar no mundo e se constrói com a ajuda de diferentes mulheres que cruzam seu caminho durante a ditadura de Somoza.

A autora constrói a identidade das protagonistas tecendo conflito por conflito, como um tecido fino, fio a fio, e no fim, o individual de Lavínia se agarra a um processo revolucionário para uma construção coletiva. Deliciosamente sedutor e intenso, A mulher Habitada é um encontro entre a prática política revolucionária e numerosas vozes de mulheres latino-americanas. Sandinismo, marxismo e feminismo, em discursos que se completam e, em alguns momentos, se contradizem. 

Dizem que sim existiu um cacique Yarince em Matagalpa que, tendo sua companheira sempre ao seu lado, lutou contra os espanhóis. Triste e feroz história da América Latina. Os tempos mudam, as roupas mudam, o modo de se expressar muda. Mas o pano de fundo é sempre o mesmo. Nas palavras de Itzá “nós duas vivemos a mesma coisa, o mesmo sangue, só o tempo muda”. E nada morre porque tudo volta a nascer - o amor, a fúria, a luta.

Fáguas pode ser, segundo Gioconda Belli, qualquer lugar da América Latina. E todas nós somos Lavínia-Itzá – assim como Pagu, como Domitila, como tantas de nós que morreram lutando. A mulher habitada – pelo nosso contexto, pelo nosso passado, pela história de nossa gente e nossos antepassados. A mulher habitante, militante, política. A mulher violada - fisicamente, psicologicamente. Comparto com vocês um pouco de tão bonita reflexão. Deixo aqui um pedacinho da poesia final do livro, a despedida de Itzá.

“La luz está encendida. Nadie podrá apagarla. Nadie apagará el sonido de los tambores batientes.
Veo grandes multitudes avanzando en los caminos abiertos por Yarince y los guerreros, los de hoy, los de entonces.
Nadie poseerá este cuerpo de lagos y volcanes, esta mezcla de razas, esta historia de lanzas; este pueblo amante del maíz, de las fiestas a la luz de la luna; pueblo de cantos y tejidos de todos los colores.”
*A imagem desse post é uma obra do muralista nicaraguense Roberto Loaisiga Mendez, "A mulher revolucionária nos anos 80"

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Vida no Eixo

Essa reportagem foi escrita em  2008, como trabalho para minha especialização em jornalismo literário. Fico tanto tempo sem postar aqui e depois venho com coisa velha, né gente. Mas a coisa é que esse material nunca foi publicado. Foi lido por no máximo quatro pessoas especiais para mim. Nesse momento eu queria compartilhar uma coisa especial com vocês. E decidi publicar isso, praticamente intacto, inédito, tão pessoal e tão meu.
Eu não sei como estará o Elber (personagem dessa história). Como estou na Bolívia há quase três anos tampouco sei como será andar no Eixo Anhanguera nesse momento ou quanto custará. Mas isso não é tão importante. O mais importante é a vontade de viver que o Elber tinha nesse momento, a história que é universal e que acontece com tantos meninos do Brasil e de outros países - nem todas com finais felizes.
Mas chega de blá blá blá. Espero que vocês gostem. Boa leitura.

Barulho, confusão, correria. Todos os dias milhares de pessoas vão até um dos pontos do Eixo Anhanguera, em Goiânia, para pegar o grande e sempre lotado ônibus que atravessa a cidade. Do terminal do Novo Mundo ao terminal do Padre Pelágio são aproximadamente 14 quilômetros. É um meio de transporte barato, embora tenha mais que dobrado de preço no último ano. Com R$ 1, qualquer pessoa pode ir de uma ponta à outra da cidade. Não, não é um passeio turístico. Para quem não está acostumado, o cenário pode ser assustador.
Não que seja perigoso ou ofereça risco de vida. Ta, há sim um risco. Mochila nas costas é pedir para ser assaltado, por exemplo. Mas o Eixo, na verdade, assusta bem mais do que oferece perigo. Já presenciei briga de faca, ameaça de morte e discussão entre mulheres traídas (que incluiu o famoso puxa-puxa nos cabelos), mas tudo é apenas confusão. Isso dentro de um ônibus totalmente lotado, um lugar onde um simples movimento com o pé é difícil. A cada plataforma pessoas são cuspidas do veículo, enquanto outras se esforçam para entrar nele.
No meio disso tudo, um número sem fim de vendedores ambulantes tenta ganhar seu sustento. Alguns apenas oferecem seus produtos, outros cantam (sim, no meio da multidão há os “artistas do Eixo”), e outros ainda só percorrem os carros mostrando o que têm a oferecer. Elber Rodrigues não é como a maioria. Mesmo quem jamais cogitou a possibilidade de comprar tampinhas para o tanque no caminho do trabalho, muitas vezes muda de ideia.

- Eu tenho aqui uma coisa que vai fazer todo mundo enlouquecer. Um produto como nunca se viu igual. A tampa que vai fazer seu tanque ser mais eficiente e feliz. Quem vai querer? Quem quiser levante o braço, por favor. Calma gente, não precisa levantar o braço todo mundo ao mesmo tempo. Opa! Cuidado com o tumulto! Tem tampinha pra todo mundo!

O moço tem sorriso branco e alegria cativante, parece que nasceu para o ofício de comunicar. Ganha seu dinheiro e, ao mesmo tempo, alegra. Gente que acorda todos os dias às quatro da manhã para garantir o salário mínimo se esquece dos problemas e das bocas cheias de fome dos filhos para sorrir com as brincadeiras do rapaz. As garotas se assanham:

- Olha ali que moço bonito vendendo tampinhas...

Mas não adianta que o coração dele já tem dona. O nome ele não revela, mas foto que tirou da escolhida no celular ele mostra. A eleita é uma garota que tem os mesmos ideais e crenças. Elber é de uma igreja neopentecostal, Comunidade Shalom. Namoro lá não existe. Mas amor, ah esse não tem como controlar.

- Como você faz?
- A gente ora para saber se é vontade de Deus. Se tudo der certo, não tem agarração nem falta de respeito. Beijo só depois do casamento.

Hoje ele é assim. Deus está em todos os seus planos e acima de todas as coisas. Elber quer ser pregador. Mas nem sempre as coisas foram desse jeito. Muito aconteceu que fez por várias vezes com que os caminhos se modificassem. Em algumas se tornaram totalmente confusos. Em outras pareciam beco sem saída. O vendedor de tampinhas de voz clara e sorriso franco foi usuário de drogas por cinco anos.

*********
Ele adorou a ideia de virar história. Não vamos dizer que foi apenas pelo altruísmo de se tornar um exemplo de vitória. Aos 21 anos, impossível não ter aquela pontinha de vaidade. Não foi fácil encontrar Elber. Além das vendas no eixo, ele tem compromisso com a Igreja, meio distante do local onde mora. Ele é operador de som. Quartas, sábados e domingos quem comanda o áudio nos cultos é ele. Já trabalhou como operador de som em festas de todos os tipos, e tal experiência tem sido importante nessa nova fase da vida.
Elber ainda mora na casa de recuperação onde há um ano e cinco meses chegou para se recuperar das drogas. A casa é afastada da cidade, num conjunto de chácaras longe de tudo. O caminho não é fácil para quem se aventura pela primeira vez e, sinceramente, eu não me arrisco a tentar passar por ele à noite. Não que seja perigoso. Mas sem nenhum tipo de iluminação, a estrada de terra é quase um convite para se perder. 
Elber foi à frente, de bicicleta, guiando meu carro. Ele corria e, no meio da estrada, fazia manobras geniais com seu meio de transporte. Uma empolgação só, quase um show particular. De vez em quando olhava para trás, mas parecia não se importar com a dificuldade que meu pobre carro enfrentava para chegar até ele. Entre casas enormes, algumas cheias de luxo, estava a simples morada do vendedor de tampinhas.
O complexo é formado por um prédio principal, onde estão os quartos e o refeitório, uma oficina de marcenaria onde são fabricados os materiais que serão vendidos pelos internos e o resto é improviso de diversão: um campo de futebol na terra e, ao lado, uma área para ginástica. A “sala de ginástica” foi construída pelos próprios rapazes. Nela, alguns pesos foram feitos artesanalmente com tijolos e concreto. No campo, uma turma jogava bola animadamente. 
Enquanto eu conversava com Elber, embaixo das diversas árvores da entrada, a vida na casa seguia seu ritmo normal. Na cozinha, os escalados para fazer o jantar já trabalhavam às 17h. Fogão a gás ali, nem pensar. A comida é feita em fogão à lenha. Fogão construído pelos rapazes, lenha trazida e cortada por eles; mão de cozinheiro, também deles. De avental, trabalhavam concentrados, um ajudando o outro, mas tudo sob a coordenação de apenas um cozinheiro principal, que muda sempre de acordo com a escala.
O banheiro é comum: um apenas para todos, o que não é necessariamente um problema já que só há homens na casa. Alguns quartos não possuem portas. Lençóis floridos faziam o papel de guardiões da entrada. No quarto de Elber, dois beliches e uma cama. Cinco pessoas apertadas num quarto pequeno, onde duas já viveriam normalmente em pé de guerra pela disputa de espaço. Bagunça e muita desordem, coisa que o rapaz se apressa em explicar:

- Lugar onde só mora homem, já viu.

A pequena construção de quartos apertados não possui forração. Entre 30 e 45 homens, segundo Elber, vivem ali. Número exato não se sabe. Todos os dias homens e meninos entram e saem da casa. Alguns dispostos a cortar de vez as drogas de suas vidas. Outros nem tanto. Mas apesar da vida quase que de improviso, todos parecem felizes. Do passado, um rosto marcado de quem já conheceu a face mais impiedosa da vida. Olhares algumas vezes perdidos no horizonte, outros concentrados em trabalhar para não pensar nas tragédias vivenciadas. 
Elber é assim. Durante a conversa, os olhos doces e inquietos de menino recém saído da adolescência se tornavam duros, sérios. Em outros momentos, começavam a lacrimejar, quando o menino então desviava o olhar para algum detalhe da casa. O sorriso maroto, ao lembrar do sofrimento da mãe, ficava sem cor.
Ele conta a própria história como quem lembra de alguma narrativa distante, um conto de terror cujos capítulos não são fáceis de serem lembrados. Elber Rodrigues, corpo franzino, espírito cheio de sonhos. Quem vê o vendedor alegre no ônibus, ri com suas piadas, esquece das próprias desgraças por alguns instantes, sem saber que também a vida dele já foi desgraça – e graça.
Muitas vezes, nos ônibus, ele não cita o nome da casa de recuperação. Quando se fala nesse tipo de instituição no Eixo, as pessoas ficam desconfiadas. O local já foi palco de casas que alugavam o nome para jovens trabalharem e muitos agiam de má fé. Não é o caso de Elber, mas pelo histórico desse tipo de trabalho muitas pessoas olham de um jeito diferente. 

- O que atrapalha mais as vendas?
- Muita gente pensa “ah, essa pessoa já usou droga, fumou maconha, já roubou, fez tudo isso”. E não acreditam na recuperação, não acreditam que Deus pode mudar, pode recuperar as pessoas. Só olham o passado e não veem que pode ter mudança e transformação.
- É difícil ter uma segunda chance?
- A maioria das pessoas não acredita em regeneração.

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O trabalho desenvolvido no Eixo, além de ajudar a casa, funciona como terapia. Cada um tem um trabalho, de modo que ninguém fica à toa. Há a fabricação de tampinhas, a venda delas, a confecção de rodos na marcenaria e a venda deles de porta em porta. Assim que chegou, Elber foi para a oficina e por esse motivo nunca ficou responsável nem pelos banheiros nem pela cozinha na escala. Quando ele chegou, só funcionava o trabalho com os rodos. Elber fabricava em algumas horas do dia. Depois, cabelo arrumado e fala ensaiada ia de porta em porta:

- Muito bom dia minha senhora. Sou da Casa de Recuperação Shalom e estou vendendo esses rodos para auxiliar nas despesas da nossa casa de recuperação...

E blá, blá, blá. Lá ia o menino argumentar e contra-argumentar em todas as casas, até que a meta do dia fosse cumprida. Um dia, um obreiro da casa teve a ideia da tampinha para o tanque, e daí nasceu a função de Elber. Além da venda dentro do ônibus, há também um grupo que vende nos sinaleiros. O escolhido para falar no meio da multidão, tarefa que exige especial habilidade de comunicação, foi Elber. Não é fácil conseguir chamar a atenção das pessoas quando elas estão tensas e concentradas em não serem esmagadas pelo companheiro de viagem.
O começo para ele não foi fácil. Que ele tem menos vergonha que os outros garotos, é fato indiscutível. Mas nos primeiros dias as primeiras palavras saíam como agulhas espetando a pele. Nada que Elber não conseguisse superar. Era olhar para cima e mandar ver a ladainha que logo foi tomando outras formas, criando vida, até ficar quase que independente de seu criador e puxar a atenção de quem quer que estivesse dentro do carro gigantesco.
O lado bom do trabalho, para ele, é exatamente tudo aquilo que mais agrada as pessoas curiosas: conhecer. Elber faz novas amizades, descobre coisas diferentes e informações que até então nem cogitava descobrir. As drogas o atrapalharam de ver o que aos poucos descobre no Eixo. A vida pulsando de verdade e sem interferência artificial.
Quando vivia em sua cidade Natal, por várias vezes foi convidado a ir para a casa de recuperação onde estava o irmão, mas não queria nenhum tipo de mudança. Gostava da vida que tinha. Em certo momento se viu numa situação complicada, que fez com que visse que necessitava de ajuda. Que coisa foi essa que o fez querer mudar de vida, não fala. Desvia o assunto, comenta outras coisas, explica a dificuldade em se recuperar. Mas faz questão de não mencionar o momento exato em que decidiu ir para a casa e o fator que desencadeou tal vontade. Pelo que conta, quando chegou à casa ainda não queria largar as drogas. 

- Como foi no começo?
- A gente chega aqui não querendo uma mudança de caráter. Chega com tudo meio atribulado. Mas aí você vai percebendo que a vida que você levava num era vida. 

Elber nunca tinha vindo a Goiânia antes do tratamento, e por ele já não estaria mais aqui. Sente saudades de Jataí, da família, de sua casa, suas coisas. Mas considera que a casa que o ajudou precisa agora de ajuda, e vai ficando para com o trabalho colaborar com algo.
Sempre viveu com a mãe e os três irmãos maternos. Por parte de pai tem mais três irmãos, com quem não tem o mínimo contato. O pai, só conheceu depois de grande, aos 16 anos. Como sempre foi simpático e divertido, Elber atraía muitos amigos que buscavam, nele, exemplo. O primeiro cigarro de maconha foi oferecido entre brincadeiras, assim como os outros entorpecentes que usou, entre eles crack e cocaína. A culpa de ter ingressado no vício, ele atribui a si mesmo e à própria curiosidade. Mas acredita que as companhias também influenciaram.

- Má-influência, comecei a enturmar com pessoas erradas. Fui me envolvendo, quando eu vi já estava numa situação bem difícil.

Elber descreve com destreza todos os caminhos que percorreu até buscar ajuda em Goiânia. Ele coloca as drogas numa escala cronológica com fim trágico: Acaba com a vida moral, depois com o caráter e, por fim, mata. Os motivos que levam ao pior são vários. Porque deve-se um traficante, ou porque já tem-se problema com a polícia. Rouba aqui, rouba ali. Traficante não quer saber, só quer receber. Ele vendeu a droga. Não quer saber se você usou, se tem ou não dinheiro para pagar. Ele quer receber. 

- E como é a vida nas drogas?
- Quando você usa a droga, você tem amigos, tem tudo. Mas quando você não tem, fica você e a depressão. Eu ia afundando. Quanto mais eu tentava sair, mais aquela situação me oprimia, me fechava. Quando a minha própria mãe não tinha mais esperança de me ver mudar, aí que eu fui ver a situação que eu tinha chegado. Onde eu tinha entrado. Eu já estava vivendo igual um mendigo. Quem usa droga não toma banho. São vários dias sem tomar banho, enfurnado no meio do mato, em lugares que não têm uma cama pra dormir, nada. Eu já fui preso uma vez, por causa de roubo. Mas Deus sempre me livrou, porque não levei um tiro, não aconteceu coisa pior. Hoje eu sinto prazer de viver, vivia para a droga, hoje vivo para mim mesmo. 

A palavra para Elber é esperança. Fé em dias melhores e em um futuro novo em folha. Recomeçar. Quem o vê falando ou lê as coisas que articula, não imagina que o rapaz cursou apenas até a quinta série primária. As drogas o fizeram abandonar os estudos. O conhecimento de teorias e histórias oficiais é pouco, mas o que aprendeu da vida é mais do que muito doutor nem imagina. O que sabe é que mesmo não tendo noção de quem foi Nietzche ou Montesquieu, se quer mudança de vida precisa seguir em frente e aprimorar o dom de comunicar que possui. Colegas, companheiros de infância, ainda vivem o terror que o rapaz deixou no passado. E ele não pretende desistir de mostrar a essas pessoas a direção do novo caminho que descobriu.

- Não é porque não tenho estudo que eu não devo saber falar com as pessoas. O pouco que eu sei tento passar, que é não querer viver o que eu vivi.

Respira fundo, fecha os olhos, sorri.

- Vai querer jantar com a gente?



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Borboletas e furacões


Um dia de desastre, um dia de beleza. Os livros embaixo do braço, a crença de que todavia se pode fazer alguma coisa pelo mundo, por esse seu mundinho medíocre, sua bolha delineada com a imaginação débil. Do alto dessa suposta sabedoria ele acha que conhece pontos fracos dela, pensa que conseguiu decifrar sua debilidade. E ignora tanta fortaleza. "Não tem problema", ela pensa. "É uma carta na manga". Ela escuta essa musica. Essa musica que ele nunca dedicou, mas que escutaram juntos. E parece tão bonito. E ela decide: é nossa. Borboletas e furacões. E ele nunca soube.

Ele nunca sabe tanta coisa. Tanta coisa desse mundo particular, tão privado, tão fechado, tão solitário. Tão tristemente solitário, ainda que acompanhado. É a solidão mais triste, dizem. A solidão acompanhado. Esse monte de gente, essas bocas que riem devorando almas, olhos sedentos de algo, ouvidos fechados para o outro. Esse monte de gente que não enche vazio. Depois de tudo, ela olha a cama desfeita. O corpo imóvel, traste de carne do sexo masculino, ainda jaze ali, fazendo volume. Ela fecha os olhos. Sente o ar abafado do apartamentinho. Agarra os sapatos. E de pés descalços sente o chão frio e as migalhinhas no piso descuidado. Abre a porta. E com uma sede desesperada, a cidade a devora. Borboletas e furacões.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A louca

“Aos vinte e oito anos ela enlouqueceu completamente e de súbito abriu a janela do quarto e se pôs a dançar nua sobre o telhado...”

...os pés sentindo a textura das telhas de barro, o vento frio provocando um arrepio gostoso na alma. E gritava forte. Não necessitava palavras. O simples som que saía era libertador. Abriu os braços. As gotas penetrando a roupa, tocando a pele, acariciando cada poro.
Livre. Quem necessita mais? Louca, desgrenhada e viva. Livre.
Inspirado no conto Aconteceu na Praça XV, de Caio F.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Omaraka

Gregório levanta cedo, bem cedo, antes do sol nascer. Mata um dos cordeiros mais bonitos do seu rebanho.Envolve o animal já morto num aguayo. Enquanto isso sua esposa prepara as panelas, os temperos, as batatas. É um dia especial. É dia de omaraka. “A omaraka é ayni”, explica Gregório. O ayni é reciprocidade. Nas culturas quéchua e aymara, "hoy por ti, mañana por mi”.

Dois dias antes, Gregório preparou uma bolsa com folhas de coca. Refresco. E foi visitar seus vizinhos e parentes e pedir ajuda para colher suas batatas. É que Gregório só tem um filho, de oito anos, ainda pequeno para ajudar o pai. Gregório necessitava ajuda. Os vizinhos e parentes aceitaram. Agora, Gregório também deve ajudar-los em suas colheitas. É um compromisso. É ayni.

A omaraka é a colheita transformada em festa. Todos se reúnem. Colocam a conversa em dia. Trabalham duro para tirar da terra as batatas maduras. Vários sabores. Várias espécies*. Durante todo o dia Gregório deve alimentar os seus convidados. São seis refeições. E é por isso que prepara com carinho seu melhor cordeiro.

Enquanto Gregório passa o dia com os outros homens colhendo batatas, as esposas e filhas cozinham. Sopa, cordeiro cozido (que depois será assado por cada um em pequenas fogueiras de esterco). E o mais delicioso: a watya. A watya é a batata cozida com o calor da terra. A parte mais importante do almoço. A mais antiga e simbólica. Só se sabe que vem dos abuelos, os ancestrais. Desde quando? Impossível saber.
Essa omaraka é muito especial para Emília. É a primeira vez que ela deve preparar a watya sozinha. É uma grande responsabilidade, já que a batata colhida será provada. Tudo deve sair bem. Emília junta bolinhas de terra e faz uma pequena caverna. No buraco, acende fogo. Fogo que em seguida apaga, sufocando o calor com a terra. Coloca as batatas. E em duas horas o resultado de meses de trabalho está cozido, suave e tão delicioso que dispensa temperos.

Nesse dia, Gregório conseguiu colher todas as suas batatas. E elas eram grandes, saudáveis, sem nenhum bichinho. Para ele, foi um dia feliz. Festa mais linda que toda uma noite de danças.

Eu, jornalista de cidade, caminhei como nunca, o sol forte do altiplano na nuca. Minha falta de preparo físico se fez sentir. Preço pequeno a pagar por tão linda história e por poder ter a oportunidade de compartilhar com Gregório e sua família. Os aymaras e quéchuas são desconfiados, não aceitam qualquer pessoa em momentos tão íntimos. Agradeço por dividir comigo sua história. E pela saborosa watya. A melhor batata que comi na minha vida.

*Bolívia tem mais de 500 variedades de batatas. A ironia é que algumas espécies se estão perdendo exatamente pelo que faz delas um produto especial: por não ter um sabor comercial.

terça-feira, 20 de março de 2012

Domitila

Domitila Barrios de Chungara. Esse foi o nome que há seis anos me fez querer conhecer a Bolívia. E ainda hoje, quando a coragem quer me abandonar, eu penso nela como exemplo de luta. Na semana passada um anjo passou pela Bolívia. Depois de cinco anos lutando contra um câncer nos pulmões, Domitila decidiu seguir-lo e continuar com sua missão desde outro lugar.

Domitila batalhou sozinha contra o câncer, em um hospital público da cidade de Cochabamba. Protestava pela má qualidade da saúde pública no país. Seguia falando o que pensava e mesmo com uma intensa dor nos joelhos e uma tosse constante, todos os dias se levantava e dava aulas na escola de formação política que mantinha em Cochabamba. O corpo, visivelmente frágil, não conseguia opacar a força que saía dos seus olhos.

Mas já basta de falar. Ainda que nossas conversas tenham resultado numa reportagem publicada na Revista Fórum, eu nunca vou ter palavras suficientes para expressar com exatidão quem era Domitila ou o que pensava. Depois de conhecer-la, entendo porque Moema Viezzer, no livro Se me deixam falar, decidiu simplesmente transcrever o que tinha escutado.

Como uma pequena homenagem, compartilho com vocês uma de nossas entrevistas. Desfrutem.


COMO FOI QUE VOCÊ DECIDIU SE METER NA LUTA SINDICAL?
Tudo esteve sempre vinculado a isso das organizações sindicais, toda luta mineira, ao meu pai. Meu pai foi dirigente sindical na Siglo XX e depois do massacre de 1942 o mandaram a Pulacayo, a um centro mineiro mais frio todavia e ali o puseram na lista negra, nunca mais lhe deram trabalho na mina de Siglo XX. Além disso, em Pulacayo eram muito marcadas as diferenças. Isso falando da minha infância, passei minha infância lá. Lá havia três tipos de famílias: Umas bem acomodadas, que era o pessoal técnico da empresa, os gerentes, engenheiros, médicos, esses que tinham boas casas com calefação, porque fazia tanto frio que eles tinham isso para que suas casas tenham calefação eterna. Tinham boas roupas, luvas e todas essas coisas para estar bem e se proteger do frio. Outro tipo de família eram os obreiros, que as mães faziam sempre prenditas de abrigo, tecendo, ou desatando casacos mais velhos dos pais para fazer casacos para uma das crianças ou para outra. Sempre as mamães tratavam de cuidar disso. E havia um setor muito mais pobre, que era das crianças órfãs, quando morriam os pais de acidente ou com o mal da mina (silicose). Não havia nenhuma vantagem para os obreiros. Quando morria o trabalhador botavam sua família para fora da vivenda e não havia nem sequer indenização. Botavam para fora as viúvas, que construíam alguma coisinha perto da mina mesmo porque não tinham nem para onde ir e ficavam por aí e com esse frio que fazia nesse lugar e as crianças quase desnudas e não tinham nem comida. Então são as injustiças que se vê, isso de uns que tem tudo e outros que não tem quase nada. E sempre os obreiros estavam organizando-se e aí foi quando eu vivi a revolução de 52, quando meu pai participou, todo o povo participou e depois quando regressaram as mudanças que aconteceram, não?

QUE MUDANÇAS FORAM ESSAS?
Haviam triunfado, haviam ganhado e haviam ganhado dos três barões do estanho, se nacionalizaram as minas. Os mineiros e os operários haviam desarmado os nove exércitos que controlavam nosso país e isso com armas. E armados obrigaram o governo a nacionalizar as minas, a criar um seguro social, que é que o obreiro tenha direito a indenização por sua vida, em caso de acidente ou dano que tenha sofrido que tenham direitos seus familiares, seus filhos; uma série de coisas. Que tenhamos mais escolas e inclusive colégios, que naquela época não tínhamos, era apenas a escola onde somente podiam estudar pessoal técnico e homens. Que entrasse uma menina na escola era difícil. Meu pai só conseguiu permissão para que eu entrasse na escola quando eu tinha 10 anos, quando estava morrendo minha mãe. Éramos apenas 20 mulheres, a maioria eram homens. E os professores eram bem maus com as mulheres. Se uma cometia um erro, lhe levantam a saia e batiam uma coisa e castigavam diante de todos. Os castigos eram humilhantes para as meninas e muitas abandonavam a escola e não voltavam mais por isso. Para uma mulher era muito difícil estudar. Então meu pai sempre falava sobre as coisas que estavam acontecendo, nos explicava tudo. Dizia: “Com a revolução conseguimos isso e isso”. O direito de voto para a mulher e tudo isso. Antes somente votavam os que sabiam ler e a burguesia, não? Hoje mesmo no curso estávamos falando que nessa época havia três milhões de habitantes na Bolivia e disso somente 50 mil pessoas votavam para eleger presidente e vice-presidente na Bolívia. Éramos três milhões e só 50 mil votando, imagine. Eu sempre tive, então, essa inclinação e quando cheguei ao acampamento em Siglo XX e se organizaram as mulheres eu entrei, em 1963.


E QUE SIGNIFICAVA UM COMITÊ DAS DONAS DE CASA NAS MINAS?

Organizar-nos no Comitê foi para nós uma escola. Na primeira vez em que as mulheres se organizaram, anunciaram na rádio da mina dizendo que nunca mais os obreiros iam lutar sozinhos, senão que iam estar suas esposas ao lado deles. No comitê tínhamos a tarefa de lutar porque os alimentos que a empresa nos trazia, por exemplo, era de muita má qualidade, tinha o preço muito elevado e era pouco, era racionado porque eram muitos obreiros. 70% do salário do mineiro ia a alimentos. Davam-nos crédito e tínhamos que pegar da loja do patrão os alimentos. Além do mais nos enganavam no peso. O Comitê começou a lutar por isso e depois por escolas, que os professores fossem profissionais, que as escolas sejam cômodas para nossos filhos, que o lanche escolar seja de qualidade. Começamos lutando por problemas sociais, depois começamos a lutar junto com os mineiros por melhores condições de trabalho, por mais material, como dinamite. Sempre coordenávamos as ações do sindicato com as ações do comitê das donas de casa. Estávamos assim lutando por melhorias quando de repente os governos anunciavam que havia uma desvalorização do dinheiro. A mais grave foi em 1974. Com um peso boliviano comprávamos seis pães, e no dia seguinte, pelo decreto, um peso davam dois pães. Desaparecem quatro pães. Eu comprava dois pesos de pão para tomar café da manhã com meus filhos. Tinha doze pães. E de repente só tenho quatro pães. Os mineiros começaram então uma greve para melhoria de salários. E então o presidente Hugo Banzer Suarez mandou tanques, declarou nosso acampamento zona militar, proibiram reuniões, assembléias, marchas, e declarou estado de sítio. Assim que não tínhamos nada que comer, as lojas de comida estavam fechadas, pois como vão vender nessa situação? Automaticamente com essas medidas econômicas sempre se fecham todos os mercados, ninguém te vende. Os filhos morrendo de fome. Aí o governo para frear esse protesto decreta estado de sítio e dá pequenos aumentos que não cobrem nem sequer 2% do que subiu. Quando já não podíamos dar de comer a nossos filhos e vendo toda essas proibições nós decidimos nos reunir. Reunimo-nos no sindicato mesmo com o exército lá fora. Era proibido, mas o que se pode fazer diante da fome dos seus filhos? Reunimo-nos chorando porque tínhamos dito que quando as mulheres lutassem junto com os homens íamos estar melhor, e começamos a pensar que estávamos era pior, porque não tínhamos nem o que dar de comer para nossos filhos. E um dirigente nos disse: “É que a luta, senhoras, não só é social, não só econômica, mas também é política”. A luta fundamental é a política. Mas já estávamos cansados de tantos politiqueiros que não são políticos e dizíamos que não, que em política não íamos nos meter, e inclusive os dirigentes mais velhos diziam: “Eu vivo do meu trabalho, não vivo da política”. E os outros diziam que “então, senhores, nunca vai melhorar nossa situação”. Na diretiva éramos 15 e então nos demos conta de que a Siglo XX era quase como um ninho de todos os pensamentos políticos. Havia de tudo: trotskistas, comunistas, socialistas, nacionalistas, governistas... Ao final voltamos a nos reunir e nos demos conta de que todos os seres humanos são políticos desde que nascem.

COMO É ISSO?
A criança, por exemplo, quando nasce e é um bebë e começa a chorar é porque quer que troquem suas fraldas ou lhe dêem leite. Se soubesse falar diria: “Mamãe tenho fome ou fiz pipi, por favor, me troque as fraldas”. Mas como não sabem começam a chorar. Essa é a primeira manifestação política dos seres humanos. Logo tem seis ou sete anos, andará pelas ruas e de repente vê um doce, um chocolate, um brinquedo. E dirá “mamãe eu quero isso, eu quero”. A mãe diz que não tem dinheiro e não me perturbe, vamos a casa. Ele então não quer ir a sua casa e quero isso, quero isso. É o político mais sincero porque a mãe vai brigar com ele, vai bater, mas a ele não importa porque quer e ponto e não tem medo. Logo vem a adolescência do ser humano, seja homem ou mulher. Na minha casa acaba o gás e eu digo ao meu filho mais velho: filhinho, vai comprar gás. E ele vai, mas antes diz, “você vai me deixar ir nos 15 anos do meu amigo? Vai comprar para mim essa calça que está na moda? Ou me vai dar 10 pesos para ir não sei onde?” Então é isso, seguem velando por seus interesses, tem direito e seguem velando. E um dia serão maiores e se casarão. O homem estará buscando trabalho, aumento de salários, a mulher igual. E tratando de fazer com que o pouco salário alcance para pagar aluguel, comprar alimento e as coisas que tem que fazer. Os políticos sabem o que o povo quer e por isso o engana e diz que vai fazer. E muitas vezes ficamos como crianças, com medo, sem querer nos meter em política, porque ser político faz com que te assassinem, com que te levem preso, como crianças assustadas. No entanto, quando há eleições aqui na Bolívia o político te dá de presente um gorro ou umas sacolas de macarrão. Assim enganam o povo e lá vamos nós votar. Ou antes, me lembro quando cheguei aqui em Cochabamba e estava como candidato a prefeito esse que se chamava Manfred Reyes Villa, que diziam que era o bombom, que era muito bom tipo, “ai que simpático”, diziam. “Vamos votar nele”. As mulheres votaram nele porque era simpático. Sempre estamos votando pelo que nos diz a propaganda, pelo que vemos, mas não por uma linha, por uma coisa.

E PARA MANTER ESSE SISTEMA, TENTARAM COMBATER AOS OBREIROS...
É porque nos uníamos através da central obreira e lutamos sempre. De mil maneiras tentaram nos destruir. Em 1985 fecham as minas, com o pretexto de que a época do estanho havia passado. Mas as minas mais rentáveis continuam produzindo nas mãos de estrangeiros. E jogaram os obreiros na rua. E pensávamos no nosso acampamento, nessa casa que ocupei desde que era menina. Pensei que era minha casa. Mas justo em 1985 nos dão 24h para desocupar as casas: “Fora, fora, fora”. E nos botaram a todos. Quando saiu a lei de desocupar os acampamentos, de nos retirar a todos, nos olhávamos entre todas as famílias, os vizinhos, nossos filhos, e choramos. “Aonde vamos? Não sei”. E as wawas (crianças) igual não queriam ir por seus amiguinhos, sua professorinha, sua escolinha. Estivemos seis meses agüentando isso. A empresa já não nos dava nem um pão nem nos pagava o salário. Diziam: querem ir-se damos o dinheiro da indenização. Assim que agüentamos muito tempo com marchas, protestos, mas não pela decisão de nos botar da mina apenas. A central obreira era forte e por isso nos botavam mineiros, operários, construtores. Porque o decreto 21060 diz que o patrão tem direito a livre contratação de seu pessoal. Antes não havia essa lei. Ninguém podia despedir os obreiros sem uma causa justificada. Teriam que justificar porque estavam demitindo. Mas pela lei de livre-contratação, da noite para o dia estavam botando os obreiros e contrataram por salários mais baixos outro pessoal, mais jovem. O pai dos meus filhos trabalhou 30 anos de sua vida e de tudo isso lhe deram 3 mil dólares de indenização. Com isso não podíamos comprar nem um pequeno lote, nem uma pequena casa. E como já era velho, a primeira carta para se retirar foi mandada a ele. Fomos retirados do nosso trabalho, do lugar onde vivemos toda nossa vida, onde estão nossos mortos, onde envelhecemos. Posso te dizer com muita segurança que o que queriam era acabar com a central obreira, que era o que parava tudo. Isso porque sua vanguarda era os mineiros, que sempre fomos unidos e conscientes da luta de classes e tudo isso. Destruíram tudo. Mas era como um fogo que estava ardendo. Para destruí-o repartiram as brasas e as brasas foram a todos os lugares. Essas brasas se espalharam pelo país e estão aí, ardendo.

A REPRESSÃO SEMPRE ESTEVE PRESENTE.
Quantas vezes, companheira, entravam de noite o exército e levavam nossas coisas. Se havia um livro novo, se havia um relógio, um rádio, um televisor, o carregavam. Uma vez esses vendedores de livros nos estavam dando esses dicionários Larousse a crédito. E uma das minhas filhas uma vez disse que a professora havia pedido esse livro e que era completo e que os pequenos que ela tinha não serviam e não queria largar o livro. E nos deram seis meses para pagar o dicionário. E estava assim feliz quando o exército invadiu nossa casa e o primeiro que levaram foi o tal livro. E ela chorava: “ai meu Larousse não, meu Larousse não, ladrões, estão levando meu Larousse”. E quando se deram conta os militares de que ela estava gritando que estavam roubando seu Larousse, colocaram entre a porta e a janela três metralhadoras, junto com nossas coisas, para dizer que eu tinha armamento e por isso estavam levando minhas coisas. Depois que passou o conflito os companheiros vieram me falar, mas companheira, como você pode ter sido tão tonta, porque não nos deu as armas para lutar e eu falava “que armas o que, se eu tivesse essas armas imagine se eu não ia me defender”. Totalitarismo é isso, que levam suas coisas, não te deixam falar, não te deixam gritar, que te maltratam e não há liberdade.

QUAIS ERAM OS DESAFIOS QUE A MULHER TINHA QUE ENFRENTAR NAQUELA ÉPOCA E QUAIS SÃO OS DESAFIOS HOJE?
Eu penso que a discriminação a mulher também tem seu objetivo político. Isso veio com a cultura européia, a começar pela religião. Dizem que por culpa de Eva perdemos o paraíso. Ou quando fazemos esse sinal, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, onde está a mãe? De onde nasceu o Filho? Começa daí a discriminação contra a mulher. A mulher em nosso país não ensinaram nem a ler, nem a escrever. Diziam que nos mulheres tínhamos que ser educadas apenas para descascar bem as batatas, moer a pimenta e olhar as wawas. Meu pai foi um homem de muita inteligência que brigou muito para que eu entrasse na escola. Estive seis anos na escola, depois me casei, tive meus filhos. Os ajudei com as lições da escola enquanto pude, mas chegou um momento em que eu não sabia mais as matérias para ensinar-los. E diziam: “ah a mamãe agora é malvada, não nos quer ensinar”, não podiam crer que eu não sabia. A mulher devia ter mais conhecimento que o homem, pela posição que ocupa como mãe, porque tem que ajudar a seus filhos. Quanto dói a ignorância quando não se pode ajudar os filhos. Quando pela primeira vez se organizaram as amas de casa em Siglo XX todo mundo as criticou. Diziam que íamos mandar o homem a cozinhar e a cuidar das wawas. “Ai que atrevidas!”, diziam. E insultavam as mulheres que se organizavam com grosserias. Dizer que era do comitê era como dizer que era prostituta. Até meu marido tinha uns ciúmes terríveis, queria saber qual dirigente era meu amante, com qual eu estava e coisas assim. Que nos haviam visto e todas essas coisas. Ao final nossas lutas eram conjuntas e não havia mais dessas coisas. Hoje, um problema que há entre nós mulheres é a inveja. Ninguém, nem a filha de um rei, pode fazer as coisas sozinha. Temos que ser tolerantes e solidarias entre nós. Temos que aprender a respeitar-nos e também a respeitar nossas debilidades. É não pensar que você sozinha pode fazer tudo, pode ser que outra pessoa saiba fazer melhor que você. Além disso, perder o medo é o principal. Pouco antes da greve de fome que fizemos (em 1976) um padre me chamou para dar uma palestra. E o exercito proibiu, diziam que era zona militar e não se podia. “E agora, que vamos fazer?” “Vamos”, eu disse ao padre. O padre então colocou o microfone bem forte, eu falando as coisas que tinha que falar e as pessoas foram chegando, se aproximando. E eu falei no microfone, a todo volume: “Olha companheiros, eu sei que me estão escutando, pois eu vou fazer uma pergunta. Quem é nosso inimigo? Quem é nosso inimigo principal? Vocês dirão que é o exército. Os paramilitares. O governo. O imperialismo norte-americano. Não, companheiros. Nosso inimigo principal está em nós mesmos e é o medo. Esse medo que nós temos. O dia que matarmos o medo em nosso corpo não haverá forca capaz de nos impedir. Quando todos perdermos o medo, vamos nos unir e vamos ser fortes.”

EM ALGUM MOMENTO VOCÊ TEVE MEDO?
Em muitas oportunidades eu tive medo. Um não é super homem ou super mulher, isso é mentira. Quando se está presa, por exemplo. Quando se sabe que vão te torturar. Quando chega a noite. Depois que perdi meu filho na prisão via um militar na rua e sentia tanto medo, não podia nem falar e queria correr e escapar.


QUE TE MOTIVA A SEGUIR?

O exemplo das pessoas. Choramos, enterramos nossos mortos, e seguimos adiante. A raiva impulsiona, não paralisa. Nossos pais morreram cuspindo os pulmões, fazendo riqueza para outros, e, todavia não nos resta nada. Quando vemos meninos que caem nas drogas por não resistir a sua miséria, sua fome e sua solidão nas ruas, e, no entanto, outra gente tem tanto. Isso dá mais força, seus conhecimentos te dão mais força. O exemplo do seu povo te dá mais força. E sempre lembro dos conselhos do meu pai, meu pai sempre me aconselhou muito. Muitas vezes tive momentos muito tristes. Senti uma grande dor quando soube que mataram minha irma, quando saí da mina... Tanta dor, muitas vezes, muitas...

QUE NÃO FARIA SE PUDESSE VOLTAR NO TEMPO?
Às vezes nos distraímos brincando. Eu participaria mais da luta se soubesse mais coisas antes. Agora mesmo me dói que já não posso caminhar muito, que não estou muito bem de saúde para fazer todas as coisas que são necessárias. Não posso participar como eu gostaria. Eu vim do povo, o povo me ensinou tudo que eu sei. E agora que o povo necessita quadros novos, gente nova, tudo isso, minha obrigação é devolver ao povo o que aprendi do povo. Essas enfermidades me atrapalham um pouco. Tive embolia pulmonar, mas tenho que seguir.

QUEM É DOMITILA HOJE?
Meu pai foi campesino e trabalhador mineiro. Eu me sinto muito orgulhosa. Minha vida está relacionada com meu povo. Sou mineira. Filha de mineiro. Esposa de mineiro. E tenho muito orgulho disso.

QUE TE FALTA FAZER?
Continuar. Continuar a luta, conscientizar. Queria ter o poder de falar com toda a gente para transmitir toda a experiência para que não cometam os erros que cometemos e possam seguir adiante. Seria tão lindo uma aliança entre toda a América do Sul. Para que sejamos uma só força, com mais segurança. Não nos unimos porque criam regionalismos, mas temos que nos unir, mais ainda agora que a Madre Tierra está agonizando. Quando tudo se acabe que vamos fazer? Por acaso vamos comer dólares? Nesse momento até parece que não existe porque lutar, mas é agora que temos que ser mais firmes na luta.

sábado, 23 de julho de 2011

Música

Ele diz que escuta essa música e quer agarrar a mochila, cair no mundo e deixar toda essa merda. A menina faz que sim com a cabeça. Entende, porque um dia quis o mesmo. E encheu a mochila de cacarecos e deixou tudo o que a assustava tanto. Partiu. Chegou até ele depois de um caminho meio largo, e o abraçou com o desespero dos náufragos quando agarram algo na busca louca por não afundar. Ela agora quer a simplicidade de comer essa tangerina embaixo de uma árvore. Quer olhar para ele de pertinho, vendo a barba, os cravinhos na pele, as imperfeições e o traço perfeito da boca.
- Entendeu o que fala a música?
Ela diz que não. Uma e outra vez, até que a música acaba. Só para escutar o que ele explica, esse rolo todo de metáforas e significados.