segunda-feira, 18 de abril de 2011

Memorias del fuego

“No altiplano andino, mama é a Virgem e mama são a terra e o tempo. A terra, a Mãe- Terra, a Pachamama, se enfurece se alguém bebe sem convidar-la. Quando ela tem muita sede, rompe a vasilha e a derrama.
A ela se oferece a placenta do recém-nascido, enterrando-la entre as flores para que a criança viva. E para que viva o amor, os amantes enterram seus cabelos enrolados.
A deusa terra recolhe em seus braços os cansados e os quebrados que brotaram dela e se abre para dar-lhes refugio no final da viagem. Desde abaixo da terra, os mortos a florecem”
De Memórias do fogo – As caras e as máscaras – Eduardo Galeano

quinta-feira, 24 de março de 2011

Não custa

Deita no chão de casa e para um pouco pra olhar o céu. É economizar energia e ao mesmo tempo tirar uma horinha da nossa vida agitada pra sentir a música da vida, aproveitar pra bater um papo olhando a lua ao lado das pessoas que você mais ama e que nunca escuta. Deixe o planeta respirar e respire também. Você pode ter uma grande surpresa. =D

É SÁBADO, 27 DE MARÇO, ENTRE 20h30 E 21h30 (HORA DE BRASÍLIA)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O senhor da abundância


Aperto. Suor mesmo a 10 graus centígrados e baixo uma chuvinha fina. Nas mãos das pessoas carrinhos, cestinhas com comidinhas pequenininhas e mais uma grande variedade de inhos. Esses mês tudo é inho. É tempo de miniaturas em La Paz. É tempo da feira de Alasitas. Todos saem para comprar em miniatura as coisas que desejam ter grandes. O frio ar paceño fica com um cheiro forte de palo santo. É que além de comprar tem que fazer ch’allar com um yatiri, um bruxo andino, o que cria o vínculo entre o desejo das pessoas e o senhor das Alasitas, Ekeko. Ele vai fazer o pequenino ser grande. O Ekeko. Senhor da Abundância.
Também há cerimoniazinhas. As pessoas se casam, fazem batismos e até divórcios. Compram casas, lotes, planejam viagens e tiram passaportes. E recebem seus documentinhos. Tudo jurado em cartorinhos e devidamente selado com carimbinhos.
La Paz sempre tem uma certa magia no ar, mas essa época é especial, doce. Nossas casas ficam com um cheiro bom de flores com mel e açúcar. O pequenininho é também uma sementinha no coração de que tudo vai dar certo. Agora a esperança para mim tem cheiro, e é fumaça de palo santo. É flor e suor. É maçã-do-amor e miniatura de pão e rosquinhas.
Eu também já fiz minhas comprinhas em Alasitas. Infelizmente ainda não se pode comprar um bloguinho. Mas junto com tantos projetos, O Sussurro e a opinião de todos vocês é muito importante para mim. Essa é minha primeira postagem de 2011. E aqui, desde Los Andes, desejo a todos muita sorte e agradeço por estarem comigo. Esse ano vai ser espetacular. Vocês podem ver? Eu sim, ta evidente nesse sorriso maroto do Ekeko.

P.s.: O Ekeko é boliviano de origem. Não peruano. ;D

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Preparação

Os dedos tocam o rosto. A pele macia, o toque, o calor da mão que conseguia cobrir-lhe a bochecha. Assim ele lhe desvendava, lhe descobria. A deixava sem defesas e fazia tremer todo o seu corpo. Abraço. Miradas suaves. Perfeição. É conto de fadas, a união do dual, a complementaridade. Yin e Yang. O reencontro.
Abre os olhos. Vazio. Nada. Não há mais sonho. Os olhares são duros. Caminha e sente os cristais que penetram finos os pés desnudos. O piso amadeirado se tinge de vermelho. Pela janela entra um vento frio, cortante. Já não há borboletas nem sol. Chuva? Não. O vazio do frio inexplicável. Mas vai passar. E ela sabe.
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Em um mês chega a primavera. Só um mês? É necessário preparar-se. Senta-se no sofá quente de lembranças. Olha os pequenos pés delicadamente feridos. As cortinas já não voam. Tira da pele um por um os delicados cacos.
Mete os pés na bacia que jaz ao lado com sua água transparente. A água fria a tira de seu torpor: a vida não é só memória e sonho. Depois do choque sente entre os dedos um estranho prazer: a vida tampouco é apenas realidade. Enxuga os pés, cada curva, os dedos, as unhas, o calcanhar. Olha os pequenos pontos rosados. Já não há sangue e até consegue ver beleza nas feridas.
Fecha os olhos. Respira fundo. E resolve voltar a sonhar em outro contexto.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Miradas

- O problema é que você olha as pessoas nos olhos.
- ?????
- É, não se pode olhar as pessoas nos olhos.
- Por que?
- É perigoso, avisam até nos aeroportos. Você dá abertura para que as pessoas cheguem até você.
- Isso é ruim?
- É perigoso.
- Não dizem que os olhos são as janelas da alma? Pois é, o problema é que sou muito bisbilhoteira, adoro uma janelinha.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A menina dos sapatinhos vermelhos

- Rasga-me com a força de uma espada forjada em mil ressentimentos.

Assim começava a fala da menina que não sentia sua vida clareada pela luz da lua cheia feita para os amantes. Sentada embaixo de uma árvore sem folhas, ela só sabia olhar as estrelas com os olhos opacos. Olhos que só podem ser tão apagados porque já brilharam demais. Como pode algo tão recente doer tanto? Doía. Com aquela dor estranha e silenciosa que corrói as entranhas, fechou os olhos por uns instantes. Estava cansada. Tão jovem e tão cansada. A verdade é que não sabia por onde ir. Sentia-se cansada e estúpida, o tipo de pessoa que jamais poderia ser amada de verdade por alguém.

- Sangra e faz jorrar esses ciúmes amargos e doloridos, coração.

Era o apocalipse interno. A força de mil dragões torturando-a e rindo de sua agonia. Por que amar dói tanto? Era a única coisa que ela queria entender. A pobre menina de sapatinhos vermelhos que não tinha estrada amarela para seguir, só um amor gigantesco e uma vontade enorme de gritar. Quando ouviu o grito da louca que cantava na esquina, sorriu. Queria ter a liberdade dos loucos, que em seu delírio não se importam com quem quer que seja, só com os próprios devaneios, com os amores de sonho. Deve ser bom ter um amor de sonho. Desses em que não existe o perigo de cair da cama e esborrachar-se na realidade dura e gelada. Que merda de realidade, menina. Você deveria mesmo ter seguido Alice e ficado pelo País das Maravilhas, que aqui só há dor e ressentimento. Respirou fundo. Sentiu o ar quente e seco agredindo suas narinas.
Depois de chorar lágrimas de açúcar amargo, a menina adormeceu. Acordou com um incômodo nos pés. Durante o sono os pés cresceram atrevidos, esborrachados e feios, e rasgaram o delicado sapatinho vermelho-brilhante. Pronto. Agora era seguir descalça mesmo, sentindo a rudeza das pedras e a aspereza da terra. Era sua vez de, despida de tudo, encarar a vida. E dessa vez nem o Mágico poderia intervir por ela.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A gota

A gota caiu do cabelo e inundou toda sua vida como uma forte tempestade. Por alguns segundos o frio quis se aproximar, mas com um leve movimento de cabeça viu os olhos que fariam ferver o seu corpo mesmo no meio da neve. A água dos cabelos evaporou rapidamente com o calor do encontro de corações. Lá fora as nuvens descobriram devagar o pico nevado do Illimani. O sol nasceu. A cidade despertou. As pessoas movimentavam-se apressadas nas calçadas estreitas. Ali, dentro da casa, o relógio resolveu congelar seus ponteiros: o tempo pertence a eles.